Em 1965, Abel Pacheco, W. S. Easterling e Margaret W. Pryer relataram um estudo piloto realizado no Central Louisiana State Hospital (EUA) avaliando uma dieta cetogênica (dieta com baixo teor de carboidratos, em que o objetivo é favorecer a produção de cetonas) em pacientes com esquizofrenia crônica.
A motivação veio de uma observação clínica: um dos autores descreveu ter notado que algumas pacientes pareciam desejar carboidratos pouco antes de pioras do quadro, acompanhadas de perda de peso, e levantou a hipótese de que poderia haver dificuldade no uso de carboidratos em parte desses pacientes. O artigo também menciona que, à época, já existiam relatos na literatura sobre alterações/variações no metabolismo de carboidratos em pessoas com esquizofrenia, e que alguns tratamentos então usados (como eletroconvulsoterapia e coma insulínico) eram associados a mudanças em parâmetros relacionados ao metabolismo e ao equilíbrio ácido–base.
Quem participou
O estudo incluiu 10 pacientes do sexo feminino, com idades de 19 a 63 anos, diagnosticadas como esquizofrenia crônica: 9 do tipo indiferenciado e 1 do tipo paranoide. As autoras e autores descrevem que todas foram consideradas de mau prognóstico e já haviam recebido tratamentos prévios “sem resultados duradouros”.
Como a intervenção foi conduzida
- A dieta cetogênica foi administrada por 2 semanas.
- Durante esse período, as pacientes continuaram recebendo os tratamentos em uso no hospital, que incluíam medicações e eletroconvulsoterapia (ECT).
- A avaliação clínica principal relatada com mais ênfase foi feita em três momentos:
- nos primeiros 2 dias do estudo (linha de base),
- após 2 semanas de dieta,
- uma semana após interromper a dieta.
Como os sintomas foram medidos
O artigo informa que foram usados três instrumentos para captar mudanças comportamentais, mas admite limitações importantes:
- Uma lista de observação de enfermagem (“check list”) não foi aplicada de forma tão sistemática quanto o desejado, e os autores questionaram a validade dela “neste estudo”.
- Uma escala chamada Minimal Social Behavior Scale foi considerada inadequada para aquele grupo, porque as pontuações iniciais eram “altas demais” (efeito de teto).
- A escala que os autores consideraram mais promissora para detectar mudança clínica foi a Beckomberga Rating Scale for the S-Factor, construída para avaliar mudança clínica em esquizofrenia. Nessa escala, a entrevista foi pontuada por um autor e por um estagiário de psicologia clínica, primeiro de forma independente e depois em consenso; o texto relata alta concordância estatística entre os avaliadores nos três momentos.
O que foi encontrado
Em vez de apresentar tabelas com pontuações, o artigo resume os resultados principais da seguinte forma:
- Após 2 semanas em dieta cetogênica, a média das pontuações na escala Beckomberga mostrou redução estatisticamente significativa da sintomatologia.
- Uma semana após interromper a dieta, 7 de 10 pacientes apresentaram aumento leve a relativamente grande da sintomatologia em relação ao ponto das 2 semanas, mas:
- essa piora não foi significativamente diferente da avaliação da 2ª semana; e
- as pontuações permaneceram significativamente melhores do que no início do estudo.
Os autores também comentam que, ao analisar a escala por “fatores”/“clusters” de sintomas (como discutido por Martens), não foram encontradas mudanças diferenciais significativas nesses agrupamentos no presente estudo.
Limitações reconhecidas pelos próprios autores
O texto é explícito ao classificar o trabalho como pequeno e pouco controlado, destacando limitações que impactam diretamente a interpretação:
- Apenas 10 pacientes.
- Sem grupo controle.
- Sem controle sobre outros tratamentos concomitantes (medicações e ECT continuaram).
- Dificuldade em produzir “uma acidose verdadeira” em adultos (como esperado na lógica da dieta cetogênica, segundo a hipótese apresentada).
- Suspeita de que algumas pacientes, em alguns momentos, podiam ter recebido alimentos com carboidratos de outras pacientes, o que poderia reduzir a aderência ao protocolo alimentar.
Qual foi a conclusão do artigo
O artigo não apresenta a dieta cetogênica como solução estabelecida. O que ele afirma, com cautela, é que os resultados não são conclusivos, mas sugerem algum efeito benéfico e, principalmente, servem como argumento para que seja feita uma investigação mais definitiva sobre o tema.
Por que esse relato ainda chama atenção hoje
Este texto de 1965 é um exemplo clássico de “nota clínica” que registra uma hipótese nascida da prática e um sinal preliminar observado em um cenário hospitalar real. Ao mesmo tempo, ele também mostra, em linguagem direta, por que o desenho do estudo importa: quando há muitos fatores acontecendo ao mesmo tempo (tratamentos concomitantes, ausência de controle, aderência alimentar incerta), os achados podem apontar uma direção, mas não permitem afirmar causa e efeito com segurança.
Fonte: https://doi.org/10.1176/ajp.121.11.1110
