Em 2021, uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Saudi Medical Journal reuniu ensaios clínicos para avaliar se o mel natural influencia marcadores do perfil lipídico no sangue. O foco foi em quatro desfechos laboratoriais clássicos: colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos.
A proposta foi simples: comparar intervenções com mel (puro ou diluído em água) contra placebo, nenhuma intervenção ou, em alguns estudos, contra soluções de açúcar usadas como comparador.
Como a evidência foi construída
A revisão identificou e incluiu 7 estudos, totalizando 370 participantes, com duração entre 4 e 12 semanas. Os desenhos incluíram ensaios clínicos randomizados e crossover.
Quem participou
Os trabalhos analisados envolveram perfis bem diferentes de participantes, por exemplo:
- Adultos saudáveis
- Pessoas com hiperlipidemia
- Fumantes crônicos
- Indivíduos com sobrepeso/obesidade
- Um estudo pediátrico com diabetes tipo 1
- Essa diversidade é importante, porque os resultados representam uma média de contextos distintos.
Como o mel foi usado (dose e forma)
As intervenções variaram bastante, o que é um ponto central do artigo:
- Doses na faixa de 20 g/dia até 70–75 g/dia em vários estudos.
- Uso de mel em água (ex.: 70 g em 250 mL) em alguns protocolos.
- Comparações com sacarose (ex.: 70 g de sacarose em água) e com solução de glicose + frutose desenhada para ser “equivalente” ao mel em conteúdo de açúcares.
O “tipo de mel” e o que realmente foi informado
Um achado prático da revisão é que o tipo de mel não foi padronizado na maior parte dos ensaios. Em vários estudos, o produto é descrito apenas como “mel natural”, sem detalhar florada, origem geográfica, processamento ou composição.
Quando o tipo foi especificado
Entre os estudos incluídos, há pelo menos um exemplo em que o tipo aparece de forma explícita:
- Mel Tualang: usado em fumantes crônicos, com 20 g/dia por 12 semanas.
Por que isso importa
Como a intervenção “mel” não foi descrita de maneira uniforme, a revisão deixa claro que não é possível concluir se um tipo específico é superior a outro, nem estabelecer uma dose ideal em gramas aplicável a diferentes contextos.
Principais desfechos: o que a meta-análise encontrou
Ao combinar os resultados dos estudos, o trabalho encontrou mudanças médias estatisticamente significativas:
- Colesterol total: redução média de aproximadamente 15 mg/dL
- LDL: redução média de aproximadamente 19 mg/dL
- Triglicerídeos: redução média de aproximadamente 10 mg/dL
- HDL: aumento médio de aproximadamente 2 mg/dL
Esses valores são apresentados no artigo como diferenças médias agrupadas (efeito combinado) entre grupos com mel versus controle.
Leitura crítica: limitações que o próprio artigo reconhece
Mesmo com resultados favoráveis em média, a revisão aponta fatores que reduzem a força das conclusões:
- Heterogeneidade em alguns desfechos: os estudos não se comportaram de modo totalmente consistente entre si.
- Risco de viés: em diversos ensaios, itens metodológicos (como ocultação da alocação e cegamento) não foram descritos com clareza.
- Variabilidade de dose, duração e comparadores: isso dificulta saber “quanto” e “como” o mel deveria ser usado para reproduzir os efeitos.
- Desfechos clínicos não avaliados: o conjunto de estudos analisou marcadores laboratoriais, não eventos como infarto, AVC ou mortalidade.
O que o estudo discute como possíveis explicações biológicas
A revisão menciona mecanismos propostos na literatura, sobretudo relacionados a:
- Compostos fenólicos e flavonoides presentes no mel, associados a atividade antioxidante e discussão sobre processos envolvendo lipoproteínas.
- Outras hipóteses mecanísticas citadas pelos autores aparecem como explicações sugeridas, e não como comprovações diretas derivadas dos ensaios incluídos.
Conclusão
A revisão sistemática com meta-análise indica que, no conjunto dos ensaios avaliados, o mel natural foi associado a reduções médias de colesterol total, LDL e triglicerídeos e a um aumento médio de HDL ao longo de semanas. Ao mesmo tempo, a evidência é limitada por heterogeneidade, risco de viés e, principalmente, pela falta de padronização do tipo de mel e do protocolo de uso, o que impede conclusões comparativas entre variedades (como floradas) e dificulta definir uma dose universal.
Fonte: https://doi.org/10.15537/smj.2021.42.5.20200664
