Determinante fisiológico da fome, saciação e saciedade


Em 1985, Stylianos Nicolaidis e Patrick Even publicaram uma tentativa de responder a uma pergunta antiga: o que, no corpo, “vira a chave” para começar e terminar uma refeição, mesmo quando ainda há alimento no trato gastrointestinal. O artigo parte de uma observação simples: o comportamento alimentar varia muito no curto prazo, mas humanos saudáveis e animais mantêm equilíbrio energético no longo prazo, com oscilações compensatórias de ingestão e peso em dias subsequentes (hiperfagia e hipofagia compensatórias).

A partir daí, os autores argumentam que muitas teorias anteriores (por exemplo, as “moleculostáticas”, que atribuíam fome/saciedade a quedas e elevações de substâncias específicas no sangue) captavam partes do fenômeno, mas falhavam em explicar o conjunto, inclusive porque frequentemente não se observava uma relação direta e consistente entre essas variáveis isoladas e o início/fim espontâneo das refeições.

A hipótese isquimétrica

A proposta central do artigo é a hipótese isquimétrica: a fome e a saciedade seriam disparadas por mudanças no que os autores chamam de “produção de potência” celular (energia sendo efetivamente gerada/usable pelas células), e não por um único combustível (como glicose) medido isoladamente.

O conceito de “Metabolisme de Fond” (MF)

Para operacionalizar isso, o estudo define o Metabolisme de Fond (MF) como:

  • metabolismo total do corpo
  • menos o custo metabólico da locomoção/atividade

A lógica é separar a energia “de base” disponível/produzida (segundo a definição do artigo) do gasto variável causado por movimento, que pode mudar por motivos ambientais e comportamentais.

O que os autores observaram sobre início e fim da refeição

Usando calorimetria indireta (O₂/CO₂), registro de atividade locomotora e monitoramento contínuo da ingestão, os autores descrevem um padrão:

  • Antes de uma refeição espontânea, o MF tende a apresentar uma queda progressiva (uma “regressão negativa”) cerca de 20–15 minutos antes do início.
  • Quando a ingestão começa, o MF sobe de forma marcada.
  • O término da refeição ocorre quando o MF atinge um pico, imediatamente antes do fim do episódio alimentar.
  • Após a refeição, o MF cai e retorna ao nível inter-refeições em torno de ~20 minutos.

No enquadramento do artigo, isso sugere que o início e o encerramento do comer poderiam ser previstos por esse sinal metabólico (MF). Os autores ressaltam que correlação não prova causa, mas indicam que manipulações experimentais do MF (citadas no próprio texto como linha de evidência) apoiariam a plausibilidade do mecanismo.

Saciação: por que a refeição pode acabar “cedo”

O artigo diferencia:

  • saciação: o que encerra a refeição (um fenômeno de curto prazo, “pré-absortivo”, quando grande parte do alimento ainda está no tubo digestivo);
  • saciedade: o estado mais duradouro que se mantém entre as refeições.

A ideia-chave é que sinais sensoriais e gastrointestinais podem acionar reflexos antecipatórios (os autores preferem esse termo a “fase cefálica” porque incluem sinais abaixo da cavidade oral), gerando respostas neuroendócrinas como se os nutrientes já tivessem sido absorvidos.

Reflexos antecipatórios e “metabolismo que antecipa a absorção”

O texto descreve evidências de que estímulos gustativos e do trato gastrointestinal podem desencadear respostas rápidas envolvendo, entre outros mediadores, glucagon, catecolaminas e insulina, mobilizando reservas endógenas e alterando rapidamente parâmetros metabólicos (como o quociente respiratório em situações específicas). Isso, no modelo proposto, ajudaria a explicar como a saciação pode ocorrer antes de a absorção intestinal sustentar plenamente a saciedade: o corpo “antecipa” metabolicamente o que está por vir, elevando o MF e contribuindo para desligar a ingestão naquele momento.

O que este texto acrescenta ao debate atual

O artigo não pretende reduzir o comportamento alimentar a um único fator, porque reconhece que contextos como perigo podem inibir a ingestão, e que palatabilidade/expectativa de privação podem precipitar uma refeição mesmo sem sinais “fortes” de fome. A contribuição principal é propor que, por trás de vários sinais (glicose, lipídios, aminoácidos e hormônios), haveria um denominador comum: o nível de “potência” metabólica disponível/produzida, sintetizado no MF.

Para quem lê hoje, o valor do artigo está menos em “encerrar” a discussão e mais em oferecer um raciocínio integrativo: o organismo não vive de um combustível só, e o controle de comer pode depender mais do estado funcional de produção/uso de energia do que de um marcador isolado no sangue.

Fonte: https://doi.org/10.1093/ajcn/42.5.1083

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