Consenso Delphi Modificado sobre Melhores Práticas no Uso da Terapia Metabólica Cetogênica em Transtornos Mentais Graves


O artigo reúne um grupo de especialistas em saúde mental com experiência prática em terapia metabólica cetogênica (TMC) para organizar, em recomendações objetivas, como implementar essa abordagem com mais segurança em adultos com transtorno depressivo maior, transtorno bipolar e esquizofrenia. A motivação central é que, apesar de décadas de tratamentos focados em neurotransmissores, muitos pacientes seguem com sintomas relevantes, efeitos adversos importantes e grande carga funcional. Nesse cenário, cresce o interesse em intervenções que atuem sobre disfunção metabólica, que aparece com frequência associada a esses transtornos.

O que é “terapia metabólica cetogênica” neste documento

O texto define TMC como uma intervenção alimentar desenhada para levar o organismo a produzir corpos cetônicos endógenos e manter um estado de cetose nutricional. Para os especialistas consultados, a cetose clinicamente relevante costuma começar com beta-hidroxibutirato (BHB) ≥ 0,5 mmol/L, e em parte dos pacientes os melhores resultados clínicos podem aparecer quando o BHB é mantido em torno de 1,0 mmol/L ou mais. Também é enfatizado que respostas em saúde mental podem demandar tempo: semanas a meses, variando entre pessoas.

Como o consenso foi construído

Foi usado um Delphi modificado, metodologia que busca convergência de opinião qualificada. Um grupo diretor elaborou 33 afirmações sobre definição, seleção de candidatos, monitoramento e boas práticas. Depois, essas afirmações foram avaliadas por profissionais de saúde mental com conhecimento/experiência em TMC. O estudo definiu previamente que “consenso” seria ≥ 75% de concordância, e ao final todas as 33 afirmações atingiram consenso.

Quem pode se beneficiar e quem exige mais cautela

A narrativa do artigo deixa claro que a TMC é vista como promissora para transtornos mentais graves, mas a evidência em psiquiatria ainda não amadureceu no mesmo nível de condições como epilepsia. Mesmo assim, os especialistas consideram razoável oferecer um teste de TMC, especialmente quando há sinais periféricos de disfunção metabólica (por exemplo: alterações em glicemia, hemoglobina glicada, insulina de jejum, triglicerídeos, pressão arterial e medidas de adiposidade central). Também é destacado que a ausência desses sinais não exclui a possibilidade de disfunção metabólica no sistema nervoso central, então o teste pode ser considerado caso a caso.

Ao mesmo tempo, o artigo reforça que nem todos são bons candidatos. Antes de iniciar, deve haver uma avaliação clínica cuidadosa para identificar contraindicações absolutas e relativas descritas a partir de revisões de referência. Entre situações que exigem atenção especial, o texto menciona, por exemplo, gestação, amamentação (conforme fontes consultadas), diabetes tipo 1 sem supervisão especializada, uso de inibidor de SGLT-2 (pelo risco de cetoacidose euglicêmica), história de pancreatite, doenças graves, além de condições clínicas e contextos sociais/psiquiátricos que podem dificultar adesão ou segurança.

Monitoramento: o que o artigo recomenda na prática

O consenso dá bastante peso ao monitoramento, porque a adaptação metabólica pode alterar parâmetros fisiológicos e interagir com medicamentos.

Antes de iniciar, o artigo recomenda um painel basal que inclua:

  • hemograma completo (HC),
  • painel metabólico abrangente (PMA),
  • perfil lipídico em jejum,
  • insulina de jejum,
  • vitamina B12,
  • vitamina D,
  • painel de carnitina.

Durante a TMC, esses marcadores devem ser acompanhados regularmente, e eventuais deficiências (como vitamina D, B12 e carnitina) devem ser corrigidas quando presentes. O texto também destaca a importância de hidratação e eletrólitos, principalmente na fase inicial.

Quanto ao acompanhamento da cetose, a recomendação é que o BHB seja monitorado com mais frequência na fase de indução (até 3 meses), preferencialmente por medida no sangue capilar (considerada padrão-ouro para acurácia), com alternativas por urina ou respiração quando a coleta de sangue não for viável.

Boas práticas clínicas e segurança psiquiátrica

O texto orienta que a TMC seja, em geral, tratada como terapia adjuvante às abordagens de primeira linha (medicações e psicoterapia), não como substituição automática. Também defende uma equipe mínima com:

  • um profissional de nutrição (ou profissional treinado em TMC), e
  • um prescritor com treinamento/experiência em TMC, com possibilidade de outros apoios conforme o caso.

Há um ponto de segurança relevante: embora o artigo considere raros os relatos publicados de piora psiquiátrica, ele recomenda vigilância porque, nas primeiras semanas, podem emergir ou piorar sintomas como insônia, ansiedade, irritabilidade, oscilação de humor, hipomania/mania ou psicose, exigindo contato imediato com a equipe. Nessas situações, a avaliação clínica deve buscar fatores associados à adaptação (“keto-adaptação”), como desidratação, desequilíbrios eletrolíticos, hipotensão, hipoglicemia, hipercetonemia, acidose leve e interações dieta–medicamento. O documento também aponta que transições graduais podem reduzir sintomas comuns do início.

Tempo de teste e o que ainda não se sabe

Para que um teste seja considerado adequado, o consenso sugere manter cetose por pelo menos 3 meses antes de concluir se houve benefício. Ao mesmo tempo, o artigo reconhece que não existe evidência para definir por quanto tempo manter a TMC quando metas de saúde mental são atingidas. Ele comenta que, em epilepsia, crises podem retornar após interrupção, e que pessoas podem optar por continuidade de longo prazo — mas ressalta que é necessário acumular mais dados e experiência clínica para orientar duração e descontinuação com precisão.

Fonte: https://doi.org/10.3389/fnut.2026.1749406

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