Jejum de 16 horas otimiza a imunoterapia contra o câncer em camundongos e humanos


O estudo testou uma pergunta simples: se a pessoa ficar 16 horas sem comer (um jejum noturno), isso muda o “ambiente” dentro do tumor a ponto de ajudar a imunoterapia a funcionar melhor? Os autores avaliaram isso em camundongos e também reuniram dados em humanos no contexto de câncer colorretal e imunoterapia neoadjuvante.

A proposta não foi “curar câncer com jejum”. Foi investigar se uma mudança curta e controlada no metabolismo poderia deixar as células de defesa em melhor condição para agir dentro do tumor quando a imunoterapia é aplicada.

Por que o tumor é um lugar difícil para a imunidade trabalhar

O trabalho parte de um problema conhecido na biologia do câncer: o tumor e as células do sistema imune competem por nutrientes. Dentro do tumor, as células de defesa (especialmente as células T CD8+, que são importantes para atacar células tumorais) podem perder força quando o ambiente fica “ruim” para elas, com escassez ou desequilíbrio de nutrientes.

A pergunta dos autores foi: dá para mudar esse cenário por algumas horas, de um jeito prático, e aproveitar essa janela para potencializar a imunoterapia?

O que o jejum de 16 horas parece mudar dentro do tumor

No estudo, o jejum de 16 horas foi associado a um achado específico: aumento de isoleucina dentro do tumor (isoleucina é um aminoácido essencial, isto é, obtido pela alimentação).

A explicação proposta pelos autores é que essa mudança no “combustível disponível” no microambiente tumoral ajuda as células T CD8+ a manterem programas ligados à citotoxicidade (capacidade de destruir células tumorais) por mecanismos descritos no artigo, incluindo reprogramação epigenética e remodelamento de fosfolipídios, com participação do pool de acetil-CoA.

Em termos simples: o jejum muda temporariamente o contexto metabólico dentro do tumor, e isso pode favorecer o desempenho das CD8+ justamente onde elas mais precisam funcionar.

O que foi observado em camundongos

Nos modelos em camundongos, os autores relatam que o jejum noturno de curto prazo se associou a sinais de CD8+ mais funcionais dentro do tumor:

  • aumento de citotoxicidade;

  • redução de CD8+ com perfil de exaustão/disfunção, com validações por citometria de fluxo.

Essa parte é importante porque o grande desafio da imunoterapia é justamente ter células T ativas e persistentes dentro do tumor.

O que aparece nos dados em humanos (câncer colorretal)

O artigo descreve frentes clínicas e de amostras humanas. Em uma coorte hospitalar, 12 pacientes com câncer colorretal foram distribuídos em um grupo com jejum a partir das 20h e um grupo controle com protocolo de recuperação rápida e suporte nutricional pré-operatório.

O estudo também descreve uma coorte prospectiva de imunoterapia neoadjuvante em câncer de reto localmente avançado pMMR/MSS (registro: NCT05731726), em que o grupo jejum iniciava o jejum às 20h da noite anterior, recebia a infusão por volta das 10h, e encerrava o jejum ao meio-dia.

Na síntese dos resultados, os autores relatam que, em pacientes recebendo imunoterapia neoadjuvante, o jejum curto foi capaz de aumentar expansão clonal de CD8+ e programas de citotoxicidade. Traduzindo a essência: o padrão observado sugere que o jejum curto pode estar associado a uma resposta imune antitumoral mais “engajada” no contexto avaliado.

O que essa evidência permite dizer, com os pés no chão

Pelo que o artigo descreve, o jejum de 16 horas foi usado como uma intervenção curta, com lógica biológica clara: mexer na oferta/competição de nutrientes no microambiente tumoral para favorecer células T CD8+ e, com isso, otimizar a imunoterapia nos modelos estudados.

O ponto mais útil para o leitor é entender a mensagem prática do estudo: metabolismo e imunidade conversam o tempo todo. E, em algumas situações, uma mudança simples e bem delimitada (como uma janela de jejum noturno) pode produzir alterações mensuráveis em marcadores ligados à ação de CD8+ dentro do tumor, especialmente quando o tratamento depende desse tipo de resposta.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.cmet.2026.01.015

Postagem Anterior Próxima Postagem
Rating: 5 Postado por: