A presença de microplásticos (MPs) nos alimentos vem sendo relatada com frequência, mas a comparação entre estudos é difícil porque cada pesquisa usa definições e métodos diferentes para detectar e contar partículas. Uma revisão recente publicada no Journal of Hazardous Materials reuniu e organizou esse cenário de forma quantitativa, comparando tipos de alimentos e técnicas analíticas, e mostrando como essas escolhas podem mudar as estimativas de ingestão diária.
O que os autores fizeram
A revisão compilou um grande banco de dados com concentrações numéricas de MPs extraídas de 193 artigos e, separadamente, concentrações em massa extraídas de 12 artigos (porque comparar “número de partículas” com “massa de plástico” pode gerar vieses). Os resultados foram organizados em 13 categorias de alimentos e bebidas, incluindo: carnes, grãos, frutas e vegetais, peixes, crustáceos, moluscos, água da torneira, água engarrafada, leite, sal, cerveja, outras bebidas, açúcar e mel.
Para tornar os estudos comparáveis, os autores ajustaram dados publicados em diferentes faixas de tamanho para uma faixa “padrão” de 1 a 5000 µm, usando uma extrapolação baseada em distribuição em lei de potência — um passo central porque muitos trabalhos “enxergam” apenas parte do tamanho real das partículas.
O principal achado que muda a conversa sobre “de onde vem a maior parte”
O conjunto de estudos disponíveis está desbalanceado: há muito mais pesquisas em frutos do mar (especialmente moluscos) do que em itens comuns do dia a dia, como leite, carnes, grãos e hortaliças. Ainda assim, quando a ingestão diária estimada (EDI) é calculada levando em conta consumo médio global, as categorias que mais “pesam” na ingestão são justamente as mais consumidas no cotidiano.
- Frutas e vegetais e grãos aparecem como as categorias com maior EDI estimada, e os autores destacam que isso contraria a ideia de que “frutos do mar seriam a principal fonte alimentar” de MPs.
- Em termos de síntese, a revisão afirma que a maior parte dos MPs estimados na dieta vem de grãos, frutas e vegetais.
Quanto isso representa em números
A revisão reporta uma faixa muito ampla de ingestão diária total estimada, o que reflete a heterogeneidade dos estudos e dos métodos:
- EDI total (baseada em número de partículas): de 7,7 × 10⁻³ até 3,8 × 10⁸ MPs por kg de peso corporal por dia, com mediana de 721 MPs/kg de peso corporal/dia.
- Convertendo para um adulto “médio” usado no cálculo (70 kg), isso equivale a uma mediana de cerca de 5,09 × 10⁴ partículas por dia — com uma faixa gigantesca entre mínimo e máximo.
- EDI total (baseada em massa): de 5,98 µg/kg de peso corporal/dia até 18,7 mg/kg de peso corporal/dia, com mediana de 70,3 µg/kg/dia, somando cerca de 4,92 mg de plástico por dia para um adulto médio. Os autores ressaltam que essa estimativa em massa ainda depende de poucos dados e de desafios analíticos.
Por que os resultados variam tanto
A revisão mostra que não é apenas “o alimento” que muda o resultado; o método de medição muda muito.
- Em frutas e vegetais, técnicas baseadas em observação visual tendem a produzir números muito mais altos do que outras técnicas, sugerindo risco de superestimação por confundir partículas com impurezas do alimento.
- A revisão explica que Raman pode detectar partículas menores (cerca de 1 µm), enquanto FTIR costuma ficar em limites maiores (10–20 µm), o que pode alterar bastante a contagem final — e nem sempre os estudos deixam claro quais foram seus limites reais de detecção.
Quais plásticos aparecem com mais frequência
Ao olhar para a “identidade” dos polímeros, os autores descrevem que a composição geral encontrada nos alimentos lembra, em parte, o que mais se produz no mundo:
- PE (polietileno), PET (polietileno tereftalato) e PP (polipropileno) são os polímeros mais frequentes nos dados revisados.
- A revisão observa que o PET aparece com frequência nos alimentos, apesar de ser produzido em proporção menor que PE e PP, e discute possibilidades para isso (por exemplo, relação com materiais de contato com alimentos e embalagens), apresentando essas explicações como justificativas plausíveis a investigar.
O que a revisão recomenda para melhorar a ciência daqui para frente
Os autores concluem que a área precisa reduzir o “viés do frutos do mar” e avançar em padronização:
- Direcionar mais estudos para grãos, frutas/vegetais e carnes, que são muito consumidos e ainda pouco pesquisados.
- Relatar claramente limites de detecção por tamanho e usar, quando possível, técnicas complementares (abordagens “ortogonais”) para reduzir erro.
- Fortalecer controles de qualidade (por exemplo, controles positivos), porque a revisão mostra que a qualidade média dos estudos ainda está longe do ideal.
O que fica estabelecido com segurança por este artigo
Com base apenas no que esta revisão compila e calcula, a mensagem central é objetiva: há evidência consistente de MPs em múltiplas categorias de alimentos, mas o tamanho do problema na dieta depende fortemente do método de medição e do quanto se estuda (ou se deixa de estudar) alimentos comuns. O foco excessivo em frutos do mar pode ter distorcido a percepção pública do “principal caminho” alimentar, já que, ao considerar consumo médio, grãos e frutas/vegetais tendem a dominar a ingestão estimada.
Fonte: https://doi.org/10.1016/j.jhazmat.2025.140657
