Em pessoas em hemodiálise (HD), a inflamação crônica é frequente e se relaciona a pior prognóstico e a um quadro conhecido como “desgaste proteico-energético” (PEW), com perda de massa muscular e pior qualidade de vida.
Ao mesmo tempo, a própria sessão de HD é um momento de estresse metabólico e perda de aminoácidos, o que ajuda a explicar por que diretrizes recomendam maior ingestão proteica nesse grupo.
Dentro desse cenário, suplementos orais ricos em proteína (ONS) são usados na prática para tentar melhorar o aporte proteico. A questão é que a evidência sobre reduzir inflamação parece “mais consistente” para whey do que para soja, segundo a própria discussão do artigo.
Como o estudo foi feito
Os autores conduziram um estudo duplo-cego, randomizado, cruzado com 15 adultos em HD crônica. Cada participante recebeu, por 4 semanas, um suplemento com whey protein isolate (WPI) ou com soy protein isolate (SPI) imediatamente após a diálise; depois houve 4 semanas de washout; e então mais 4 semanas com o suplemento alternativo.
O desfecho principal foi PCR ultrassensível (hs-CRP), um marcador de inflamação; e um desfecho secundário relevante foi albumina sérica.
Um detalhe pouco comentado, mas clinicamente importante: minerais
Embora ambos entregassem ~20 g de proteína por porção, a composição mineral do produto de soja era muito mais alta:
- WPI (35 g do pó): 59,6 mg fósforo; 98,0 mg potássio; 40,9 mg sódio.
- SPI (35 g do pó): 205,0 mg fósforo; 273,3 mg potássio; 166,1 mg sódio.
Em HD, fósforo, potássio e sódio frequentemente exigem vigilância dietética; por isso, essa diferença de formulação já sugere uma desvantagem prática do suplemento de soja quando comparado ao de whey, independentemente de qualquer efeito na inflamação.
Resultados: onde o whey se destacou e onde a soja ficou para trás
1) Adesão/consumo: o whey foi melhor aceito
Na média, os participantes consumiram mais whey do que soja (19,3 ± 1,1 g vs 17,3 ± 3,2 g, p = 0,02).
O estudo descreve que o suplemento de soja tinha consistência mais espessa, e isso foi apontado como um motivo para menor consumo.
Na prática, isso importa porque, se a pessoa não consegue consumir o produto de forma regular, o “melhor suplemento no papel” vira um suplemento ineficaz na vida real.
2) Inflamação: hs-CRP ficou mais baixa com whey do que com soja
Após ajustar por período e sequência do desenho cruzado, os níveis de hs-CRP foram 2,1 mg/L menores no período do whey do que no período da soja (p = 0,04).
O modelo estatístico reforçou esse achado como “efeito do tratamento” (whey vs soja).
Em outras palavras: no curto prazo, neste grupo e com este protocolo pós-diálise, o whey foi superior à soja para o marcador de inflamação escolhido.
3) Albumina: houve “efeito de sequência”, não vantagem direta da soja
A albumina aumentou de forma significativa quando os participantes fizeram soja primeiro e whey depois (+0,2 ± 0,2 g/dL), comparado ao inverso (–0,1 ± 0,2 g/dL; p = 0,01), caracterizando efeito de sequência. Isso não significa, por si só, que a soja tenha sido “melhor”: o próprio resultado é dependente da ordem em que os suplementos foram oferecidos.
O que os autores discutem como possíveis explicações
Os autores apontam que o whey é rico em aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) e pode estimular síntese proteica via via mTOR, o que poderia contribuir para modular vias inflamatórias.
Já para a soja, o artigo menciona uma tendência (não significativa) de queda da hs-CRP e levanta a hipótese de participação de isoflavonas, mas destaca que o estudo não mediu isoflavonas plasmáticas.
Para referência técnica, as fontes citadas pelos autores incluem:
- Diretriz KDOQI 2020 (nutrição na DRC): Ikizler et al., 2020.
- Revisão sobre sinalização mTOR: Laplante & Sabatini, 2012.
Limitações
O estudo foi pequeno (n=15) e curto (4 semanas por suplemento), além de ocorrer em um único centro, o que limita generalização. Os próprios autores indicam que ensaios maiores e mais longos são necessários para confirmar e entender melhor esses efeitos.
Implicações práticas, com base estrita nos dados apresentados
Pelos resultados observados, este estudo sustenta três pontos objetivos para adultos em HD, neste protocolo pós-diálise:
- Whey foi melhor consumido do que soja (maior ingestão do suplemento).
- Whey reduziu mais a hs-CRP do que soja (diferença de 2,1 mg/L, p = 0,04).
- O suplemento de soja tinha carga mineral bem maior (fósforo, potássio e sódio), um aspecto potencialmente desfavorável em HD quando comparado ao whey, independentemente de inflamação.
Ao final, a leitura mais fiel ao artigo é direta: whey e soja não se comportaram igual; no marcador inflamatório principal, o whey teve vantagem; e, no desenho e na formulação usados, a soja acumulou dois obstáculos práticos — menor consumo e maior carga de minerais.
Fonte: https://doi.org/10.1053/j.jrn.2026.02.003
