Ácidos graxos saturados no sangue e risco de doença renal crônica: o que esta meta-análise encontrou


A doença renal crônica (DRC) é um problema de saúde frequente e, em geral, silencioso por muitos anos. Por isso, pesquisadores buscam sinais objetivos no sangue que ajudem a entender quem tem maior chance de perder função renal ao longo do tempo. Um desses sinais é o perfil de ácidos graxos circulantes — ou seja, a proporção de diferentes gorduras medidas no sangue, que pode refletir tanto o que a pessoa come quanto a forma como o corpo produz e transforma gorduras.

Neste trabalho, os autores reuniram 13 estudos de coorte (acompanhando pessoas ao longo dos anos) de 9 países, dentro do consórcio FORCE. Foram analisados 18.193 participantes que começaram o acompanhamento com função renal preservada (eGFR acima de 60 mL/min/1,73 m²). Ao longo de um seguimento mediano ponderado de 7,6 anos, 2.554 pessoas desenvolveram DRC, definida de forma padronizada como: eGFR cair para menos de 60 e, ao mesmo tempo, haver uma queda de pelo menos 25% em relação ao valor inicial.

O foco foi avaliar cinco ácidos graxos saturados específicos medidos no sangue:

  • 16:0 (ácido palmítico)
  • 18:0 (ácido esteárico)
  • 20:0 (ácido araquídico)
  • 22:0 (ácido behênico)
  • 24:0 (ácido lignocérico)

O principal resultado foi direto e, para muita gente, contraintuitivo: não apareceu sinal de que maiores níveis sanguíneos desses saturados aumentassem o risco de DRC. Mais do que isso, o 18:0 (ácido esteárico) esteve associado a menor risco de DRC. Na análise principal (já ajustada para vários fatores importantes, como idade, pressão, diabetes, medicamentos e outros), a diferença entre concentrações mais altas e mais baixas de 18:0 se associou a cerca de 13% menos risco de desenvolver DRC (RR 0,87; IC 95% 0,80–0,95). Em comparação por grupos, quem estava no quintil mais alto de 18:0 teve risco menor do que quem estava no quintil mais baixo (RR 0,83; IC 95% 0,73–0,95).

Para os outros saturados, não houve associações estatisticamente significativas com DRC incidente nas análises principais (16:0, 20:0, 22:0 e 24:0). O 24:0 chamou atenção por um comportamento “não linear”: em vez de um gradiente simples (quanto mais, melhor/pior), o efeito apareceu concentrado no grupo mais alto, com pouca diferença nos grupos intermediários — um padrão que os próprios autores tratam como um achado que precisa de investigação adicional.

O estudo também fez análises secundárias. Quando o desfecho foi uma queda mais importante de função renal (redução ≥40% no eGFR), o 18:0 novamente se associou a menor risco, com resultados consistentes em diferentes modelos estatísticos. Já ao analisar a mudança anual do eGFR como número contínuo, nenhum dos saturados apresentou associação robusta e consistente no modelo principal.

Um ponto importante para interpretar corretamente: isso não é um ensaio clínico, e sim uma meta-análise de estudos observacionais. Ou seja, o trabalho mostra associação (andar junto), não prova causa (ser o motivo). Além disso, os autores reconhecem limitações relevantes: os ácidos graxos foram medidos em um único momento (linha de base), muitos estudos não tinham dados completos de albuminúria, e sempre existe a possibilidade de fatores não medidos influenciarem parte do resultado. Ainda assim, o tamanho da amostra, a padronização do desfecho e a consistência do achado para o 18:0 em diferentes análises dão peso ao sinal observado.

Em termos práticos, a mensagem principal que fica é simples: nesta grande análise internacional, não houve evidência de que ácidos graxos saturados circulantes aumentem o risco de DRC, e o 18:0 apareceu repetidamente associado a menor risco. O próximo passo, como o próprio artigo reforça, é entender melhor os mecanismos biológicos por trás disso e quais fatores (alimentares e metabólicos) alteram de modo confiável os níveis sanguíneos de 18:0.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.ajcnut.2025.101138

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