Pesquisas sobre a natureza e o tratamento do diabetes (1862)


Em 1862, o médico britânico Frederick William Pavy publicou Researches on the Nature and Treatment of Diabetes, reunindo observações clínicas e raciocínio fisiológico sobre a glicosúria (açúcar na urina) e o diabetes mellitus. A obra se tornou uma referência histórica por registrar, com detalhes, uma estratégia terapêutica centrada em um princípio simples: reduzir ao máximo a ingestão de açúcar e amido como forma de diminuir a eliminação de açúcar pela urina e aliviar sintomas como sede intensa e urina em grande volume.

O princípio dietético defendido por Pavy

Pavy descreve que, ao evitar “starch and sugar” (amido e açúcar), seria possível estruturar um regime alimentar viável mesmo com restrições importantes. No prefácio, ele registra ter desenvolvido um substituto de “pão” feito com amêndoas e ovos, especificamente para sustentar a restrição de amido e açúcar no tratamento do diabetes.

Esse ponto importa porque, no cotidiano, retirar pão, farinha, arroz e tubérculos tende a criar um “vazio” prático. A proposta de substitutos (amêndoas, farelo, glúten e ovos) aparece como uma tentativa de reduzir o atrito da adesão dietética, sem abandonar a lógica central do plano alimentar.

A “tabela” alimentar do livro: o que ele recomenda comer e beber

Na seção “Dietary for the Diabetic”, Pavy apresenta uma lista objetiva do que “pode comer” e do que “deve evitar”. O eixo é claramente animal, com inclusão limitada de vegetais verdes e exclusão ampla de fontes de amido e açúcar.

Alimentos de origem animal destacados como base do plano

Segundo a tabela, o paciente “pode comer”:

  • Carnes de açougue de todos os tipos, exceto fígado
  • Presunto, bacon e outras carnes defumadas, salgadas, secas ou curadas
  • Aves
  • Caça
  • Peixes (frescos, salgados e curados)
  • Sopas de origem animal não engrossadas, além de caldo de carne (beef-tea) e caldos
  • Ovos “preparados de qualquer forma”
  • Queijos, incluindo cream cheese
  • Manteiga e creme

Esses itens deixam explícita a intenção de manter densidade nutricional e aporte energético com alimentos animais, ao mesmo tempo em que se retira o principal conjunto de alimentos que, para ele, alimentava a glicosúria: açúcar e amido.

Vegetais permitidos, mas em faixa estreita

A mesma tabela permite, em geral, verduras/folhas e cita nominalmente:

  • Greens, espinafre, agrião, mostarda e agrião, alface verde
  • Aipo e rabanetes “com parcimônia”

O contraste é importante: não se trata de “vegetais em geral”, mas de uma seleção específica, majoritariamente de folhas e partes verdes.

O que Pavy manda evitar: açúcar, amidos e a maior parte dos “carboidratos clássicos”

Ainda na tabela, ele afirma que o paciente deve “evitar comer”:

  • Açúcar em qualquer forma
  • Pão, “de trigo ou de outra natureza”
  • Arroz, arrowroot, sagu, tapioca, macarrão, vermicelli
  • Batatas, cenouras, pastinacas, nabos
  • Ervilhas e feijões (French beans)
  • Diversos vegetais citados como problemáticos (por exemplo, couve, couve-de-bruxelas, couve-flor, brócolis, aspargos, sea-kale)
  • Massas, tortas, pudins e sobremesas
  • Frutas de todos os tipos, frescas e em conserva

O padrão é consistente com a premissa do autor: evitar sistematicamente o que, no entendimento fisiológico do período e na observação clínica descrita, tenderia a aumentar açúcar na urina.

Bebidas: o que ele permite e o que ele restringe

Pavy lista como “pode beber”:

  • Chá, café, e cacau a partir dos nibs
  • Xerez seco e claret
  • Brandy e destilados não adoçados
  • Água com gás (soda-water)
  • Burton bitter ale, “com parcimônia”

E como “deve evitar”:

  • Leite, exceto “com parcimônia”
  • Cervejas doces, porter, stout
  • Vinhos doces e licores
  • Vinho do Porto, salvo com parcimônia

A ressalva sobre leite aparece também em discussão clínica: Pavy chama atenção para o teor de “lactin” (açúcar do leite) e descreve um caso em que grande consumo de leite se associou a aumento da eliminação de açúcar, com redução após sua retirada e substituição parcial por beef-tea.

Um ponto que ele enfatiza: “dar açúcar” como tratamento pioraria o quadro

O autor critica a prática, registrada em relatos da época, de administrar açúcar ao paciente sob a lógica de “repor o que se perde”. Ele afirma não compreender como isso poderia beneficiar e relata ter observado piora clínica quando tal método foi aplicado, levando à interrupção em poucos dias.

O que esta evidência histórica realmente documenta

O livro documenta, de forma direta, que uma estratégia dietética do século XIX para diabetes se organizava assim:

  1. Cortar açúcar e amidos como núcleo do tratamento dietético.
  2. Usar alimentos de origem animal como base alimentar (carnes, peixes, aves, ovos, queijos, manteiga, caldos).
  3. Permitir poucos vegetais, principalmente folhas, e restringir frutas, tubérculos, grãos e preparações farináceas.
  4. Orientar bebidas sem açúcar, com restrição explícita de opções adoçadas e do leite em grandes volumes.

Essa é uma fotografia fiel de uma prática descrita em fonte primária, com linguagem e conceitos do período. A leitura, portanto, serve para entender como a alimentação foi formalmente usada como ferramenta terapêutica antes de recursos modernos, e não como substituto de avaliação clínica contemporânea.

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