Equilíbrio entre riscos e benefícios da exposição habitual à radiação ultravioleta para mortalidade cardiovascular, por câncer e por câncer de pele: estudo de coorte do UK Biobank


Quando se fala em sol, a conversa geralmente começa e termina no câncer de pele. Isso faz sentido: a radiação ultravioleta (UV) é um fator reconhecido para cânceres cutâneos. O problema é que a vida real não acontece em compartimentos. A mesma exposição ao ambiente que aumenta alguns riscos pode, ao mesmo tempo, se relacionar com outros desfechos importantes do organismo.

É exatamente esse “saldo” que um estudo recente, baseado no UK Biobank, tentou estimar: ao olhar para a exposição habitual à UV, o que acontece com as mortes por doença cardiovascular, por câncer (em geral) e por câncer de pele? O trabalho está disponível como preprint (ainda não revisado por pares), então deve ser lido como evidência observacional preliminar, não como orientação prática de saúde.

Como os pesquisadores mediram “exposição ao sol” de um jeito mais realista

Em vez de usar apenas latitude ou região, os autores construíram um escore chamado Sun-BEEM, que soma quatro componentes (cada um contado como “sim” ou “não”):

  • Tempo habitual ao ar livre (≥4 horas/dia vs. menos)
  • Radiação solar ambiental do local de residência (acima ou abaixo de um ponto de corte anual)
  • Uso de solário/lâmpada UV (pelo menos 1 vez/ano vs. menos)
  • Uso de proteção solar/UV (às vezes/geralmente vs. nunca/raramente/não sai ao sol)

Com isso, cada pessoa recebe uma pontuação de 0 a 4. Em seguida, os participantes foram agrupados em três níveis: baixo (0–1), médio (2) e alto (3–4).

Quem foi acompanhado e por quanto tempo

O estudo analisou 419.007 adultos do UK Biobank, recrutados entre 2007 e 2010, com acompanhamento para mortalidade e outros registros até 31 de março de 2025. Os modelos estatísticos foram ajustados para uma lista ampla de fatores que podem confundir associações (como idade, sexo, IMC, tabagismo, álcool, nível socioeconômico, escolaridade, atividade física e sono).

O que apareceu nos resultados, em termos bem diretos

Menos mortes por causas internas em grupos com maior exposição UV habitual

Comparando com o grupo de baixa exposição (Sun-BEEM baixo), os grupos médio e alto apresentaram menor mortalidade por todas as causas e menor mortalidade cardiovascular. Também houve associação com menor mortalidade por câncer excluindo câncer de pele. Esses achados são relatados com razões de risco (HR) abaixo de 1, indicando menor risco relativo nos grupos com pontuações maiores.

Câncer de pele: a incidência aumentou para alguns tipos, mas a mortalidade não teve o mesmo padrão

No caso de outros cânceres de pele (majoritariamente carcinomas cutâneos queratinocíticos), a incidência foi maior nos grupos com Sun-BEEM médio e alto. Já para mortalidade por melanoma e por outros cânceres de pele, as estimativas foram menos estáveis (em parte porque mortes por esses desfechos são menos frequentes na coorte), e não surgiu um “degrau” simples e consistente em todas as comparações. A leitura correta aqui é: o estudo observou aumento de incidência para cânceres de pele queratinocíticos com maior exposição UV habitual, mas não apresentou um gradiente igualmente claro para mortalidade por câncer de pele.

A tentativa de responder à pergunta mais difícil: “qual seria o saldo populacional?”

Os autores fizeram uma modelagem contrafactual (g-computation) para estimar quantas mortes seriam esperadas se, hipoteticamente, todos tivessem padrões baixos ou altos de Sun-BEEM. Nesse exercício, o cenário de maior exposição UV foi associado a menos mortes por todas as causas, por doença cardiovascular e por câncer total, com pequenos aumentos estimados para mortes por melanoma e por câncer queratinocítico.

Aqui existe um cuidado essencial: esses números dependem da hipótese de que as associações observadas se comportariam como relações causais, o que não pode ser confirmado por um estudo observacional. O próprio artigo trata essa etapa como uma estimativa sob suposições, não como previsão garantida.

O que o estudo sugeriu sobre “caminhos biológicos”, sem prometer respostas definitivas

Em um subgrupo com dados de proteômica plasmática, os autores exploraram possíveis mediadores associados à mortalidade cardiovascular e por câncer, destacando um conjunto de proteínas como mediadores putativos no modelo (por exemplo, renina e FGF23, entre outras). Esse tipo de análise ajuda a levantar hipóteses sobre mecanismos, mas não prova que a UV “age” por esses caminhos específicos. A evidência apresentada é exploratória e deve ser interpretada dentro das limitações do desenho.

Limitações que mudam o peso da conclusão

O estudo é grande e detalhado, mas continua sendo observacional. Isso significa que:

  • sempre pode existir confusão residual (fatores não medidos ou mal medidos),
  • a exposição ao sol e outros hábitos foram capturados na linha de base, podendo mudar com o tempo,
  • e a própria base UK Biobank tem características de seleção conhecidas.

Além disso, por ser preprint, o trabalho ainda pode sofrer ajustes após revisão por pares.

Conclusão

O que este estudo realmente entrega é um retrato mais completo do tema: maior exposição habitual à UV, medida por um escore que combina ambiente e comportamento, apareceu associada a menor mortalidade cardiovascular e por cânceres internos, ao mesmo tempo em que a incidência de alguns cânceres de pele aumentou. Ele não “encerra” o debate e não transforma associação em certeza causal, mas reforça um ponto importante: discutir sol apenas como perigo, sem olhar o conjunto de desfechos de saúde, pode simplificar demais um fenômeno que parece ter mais de uma face.

Fonte: https://doi.org/10.64898/2026.01.08.26343592

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