A síndrome metabólica reúne alterações como glicemia elevada, resistência à insulina, dislipidemia e excesso de gordura corporal, frequentemente acompanhadas por inflamação de baixo grau. Nos últimos anos, diferentes formatos de jejum intermitente passaram a ser estudados como estratégia não farmacológica para melhorar esse conjunto de marcadores. Este trabalho avaliou, de forma sistemática, se esses efeitos aparecem de maneira consistente quando se juntam os ensaios clínicos randomizados disponíveis.
Como o estudo foi feito
Os autores conduziram uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados em adultos (>18 anos) com síndrome metabólica (ou componentes), buscando estudos em PubMed, Embase, Cochrane, Scopus e Web of Science até setembro de 2025. Foram incluídos diferentes modelos de jejum, como restrição de tempo de alimentação (em português, janela diária de alimentação), jejum em dias alternados e restrição calórica intermitente. A qualidade metodológica foi avaliada com RoB2 e a certeza das evidências com GRADE. No total, entraram 10 estudos, somando 701 participantes, com intervenções de 1 a 16 semanas.
Principais achados (o que mudou, em média)
Ao combinar os resultados, o jejum intermitente esteve associado a reduções estatisticamente significativas em marcadores centrais do controle glicêmico e da resistência à insulina:
- Glicemia de jejum (FBS): redução (SMD = −0,51; IC95% −0,81 a −0,20).
- Insulina: redução (SMD = −0,27; IC95% −0,52 a −0,03).
- HOMA-IR: redução (SMD = −0,39; IC95% −0,65 a −0,12).
- Hemoglobina glicada (HbA1c): redução (SMD = −0,25; IC95% −0,49 a −0,02).
No perfil lipídico, o resultado mais consistente foi:
- LDL-colesterol (LDL-C): redução (SMD = −0,34; IC95% −0,53 a −0,14).
Em inflamação:
- Interleucina-6 (IL-6): redução (SMD = −0,30; IC95% −0,57 a −0,03).
- Para proteína C-reativa (PCR) e TNF-α, não houve redução estatisticamente significativa no conjunto dos estudos.
O que pareceu funcionar melhor em subgrupos
Em análises por subgrupos, os efeitos foram mais evidentes em alguns cenários, como participantes com IMC mais alto e, para alguns desfechos, pessoas com idade acima de 50 anos. Além disso, dependendo do marcador, certos formatos de jejum se destacaram (por exemplo, janela diária de alimentação em glicemia de jejum; restrição calórica intermitente em HOMA-IR).
O que isso significa na prática
O conjunto de ensaios sugere que o jejum intermitente pode melhorar marcadores de glicemia e sensibilidade à insulina e, em média, reduzir LDL-C e IL-6 em adultos com síndrome metabólica. Ao mesmo tempo, os próprios autores destacam um ponto importante: embora vários resultados sejam estatisticamente significativos, os tamanhos de efeito para alguns marcadores podem ficar abaixo do que costuma ser considerado mudança clinicamente relevante, especialmente para HbA1c (o artigo discute esse limite). Além disso, a maioria dos estudos teve duração curta (até 16 semanas), o que limita conclusões sobre manutenção a longo prazo.
Qualidade das evidências
Pela avaliação GRADE apresentada no artigo, a certeza das evidências foi classificada como alta para vários desfechos, incluindo glicemia de jejum, insulina, HOMA-IR, HbA1c, LDL-C e IL-6. Para HDL-C e PCR, a certeza foi menor.
Conclusão
Ao reunir 10 ensaios clínicos randomizados, esta meta-análise indica que diferentes estratégias de jejum intermitente tendem a produzir melhoras mensuráveis em marcadores-chave da síndrome metabólica, sobretudo aqueles ligados à glicemia e à resistência à insulina, com redução adicional em LDL-C e IL-6. O quadro geral é favorável, mas o próprio artigo ressalta que a magnitude das mudanças pode ser limitada e que faltam dados robustos de longo prazo para afirmar o quanto esses ganhos se sustentam com o tempo.
