Para muita gente, “gordura no fígado” ainda soa como um problema distante. Mas, para quem vive com excesso de peso, resistência à insulina, aumento de triglicerídeos ou pressão elevada, essa condição pode estar mais perto do que parece. É justamente nesse grupo que se concentra a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD) — um acúmulo de gordura no fígado que costuma caminhar junto com alterações metabólicas. A revisão analisada aqui discute um tema que ganhou espaço nos consultórios e nas redes: o que as dietas cetogênicas podem fazer (e o que ainda não dá para afirmar) quando o assunto é MASLD.
O que é uma dieta cetogênica
A revisão descreve a dieta cetogênica (DC) como um padrão alimentar com redução importante de carboidratos, proteína em nível moderado e gorduras assumindo o papel principal como fonte de energia. Com menos carboidrato disponível, o organismo aumenta a produção de corpos cetônicos e entra em cetose nutricional, um estado metabólico que pode ser medido e acompanhado em diferentes protocolos.
O ponto central: o fígado pode responder rápido em alguns cenários
Uma mensagem prática da revisão é que, em estudos clínicos reunidos pelos autores, a redução de gordura no fígado pode aparecer em curto prazo em certos protocolos de DC — às vezes em questão de semanas, especialmente quando há mudança consistente no balanço energético e melhora do controle metabólico.
Ao mesmo tempo, a revisão deixa claro um detalhe que evita promessas fáceis: parte do benefício pode estar ligada à perda de peso e ao déficit calórico, e quando dietas diferentes levam a perdas de peso semelhantes, algumas diferenças entre elas tendem a diminuir. Ou seja, em vários casos o fígado melhora, mas nem sempre é possível atribuir tudo a um único fator isolado.
Lipídios no sangue: um padrão aparece, outro ainda é imprevisível
A revisão aponta um achado relativamente consistente: triglicerídeos tendem a cair com DC em muitos estudos de curto a médio prazo. Para quem tem MASLD, isso importa porque triglicerídeos elevados costumam andar junto com disfunção metabólica.
Já com LDL-c e HDL-c, a história fica menos linear. A revisão relata resultados heterogêneos, com estudos mostrando redução, estabilidade ou aumento, dependendo do desenho do estudo, do tempo de intervenção e da composição da dieta. Por isso, a revisão sugere cautela ao tirar conclusões generalistas apenas a partir de um marcador isolado.
Inflamação: a ideia faz sentido, mas a evidência clínica ainda é limitada
A MASLD não é só “gordura parada” no fígado. Em parte dos casos, há um processo inflamatório que pode progredir. A revisão discute mecanismos pelos quais a DC poderia influenciar esse processo — incluindo efeitos indiretos pela perda de peso e possíveis ações associadas ao metabolismo dos corpos cetônicos.
Mas a mesma revisão enfatiza um limite importante: ainda há poucos ensaios em humanos com MASLD medindo inflamação de forma padronizada, e os resultados variam conforme o marcador analisado. Em outras palavras, existe um caminho biológico plausível, porém as conclusões clínicas ainda são restritas pelo volume e pela consistência dos estudos disponíveis.
Microbiota intestinal: tema popular, mas com lacunas reais em MASLD
A relação entre intestino e fígado é frequentemente citada, mas a revisão é direta: faltam estudos específicos e robustos em pessoas com MASLD avaliando como a DC altera microbiota e metabólitos ao longo do tempo. Além disso, a revisão lembra que algumas versões de DC podem reduzir o consumo de fibras, o que pode impactar mediadores intestinais discutidos na literatura — porém, para MASLD, a evidência clínica ainda não permite afirmar um “efeito padrão” da DC sobre a microbiota.
A pergunta inevitável: “que gordura?” — a revisão diz que é relevante, mas não resolve tudo
Como a DC muda bastante a ingestão de gorduras, a revisão discute o papel potencial do tipo de gordura na resposta metabólica e nos lipídios plasmáticos. No entanto, a síntese é cuidadosa: os dados ainda são insuficientes para bater o martelo, especialmente porque protocolos variam muito e nem sempre controlam com precisão a qualidade das gorduras consumidas.
Segurança e sustentabilidade: onde a teoria encontra a vida real
A revisão também traz um ponto que costuma decidir o sucesso fora dos estudos: aderência. Uma estratégia pode funcionar bem por algumas semanas e ainda assim ser difícil de manter por meses, principalmente se o plano alimentar não for bem estruturado.
Quanto a efeitos adversos, a revisão descreve que queixas gastrointestinais e sintomas transitórios no início podem ocorrer em parte das pessoas, variando conforme hidratação, adaptação dietética e composição do plano. Isso reforça a importância de acompanhamento e de um desenho alimentar que cuide também de micronutrientes e tolerabilidade.
Conclusão
A revisão sustenta que dietas cetogênicas, no curto a médio prazo, podem reduzir gordura no fígado e frequentemente diminuem triglicerídeos em contextos estudados de MASLD. Ao mesmo tempo, ela deixa explícito que os efeitos sobre LDL-c e HDL-c são variáveis, e que inflamação e microbiota ainda carecem de evidência clínica mais consistente e padronizada em população com MASLD. O retrato final é sóbrio: há sinais promissores, mas o campo ainda precisa de ensaios mais longos, com melhor controle de variáveis e desfechos clínicos bem definidos, para separar o que é efeito específico da estratégia do que é efeito de perda de peso, restrição calórica e qualidade global da alimentação.
Fonte: https://doi.org/10.1186/s13578-025-01494-8
