Dieta Carnívora: uma revisão de escopo das evidências atuais


O artigo reuniu, de forma sistemática, nove estudos em humanos publicados entre 2021 e 2025 para mapear o que já existe de evidência sobre a chamada dieta carnívora (padrão alimentar quase totalmente baseado em alimentos de origem animal). Como síntese, os autores registram que publicações individuais relataram redução de peso, maior saciedade e possíveis melhorias em marcadores inflamatórios ou metabólicos.

Desfechos destacados na literatura incluída

1) Mais saciedade e percepção de melhora geral

Nos estudos baseados em questionários de grandes grupos (especialmente pesquisas em comunidades online), muitos participantes relataram maior saciedade e melhora subjetiva de aspectos como sono, saúde mental e saúde física, além de percepção de melhora em doenças crônicas.

Esses relatos não provam causa e efeito (porque não há controle rígido como em ensaios clínicos), mas ajudam a entender quais benefícios são mais frequentemente descritos quando pessoas adotam esse padrão alimentar.

2) Sinais favoráveis em marcadores inflamatórios e metabólicos (em parte dos dados)

A revisão descreve que, no levantamento de Lennerz et al. (2021), houve melhora em alguns marcadores laboratoriais, como:

  • Proteína C-reativa (PCR): redução relatada na comparação “antes vs. durante” dieta
  • Gama-glutamiltransferase (GGT): redução relatada
  • Relação triglicerídeos/colesterol HDL (TG/HDL): redução, com TG menores e HDL maiores
  • Estudo de referência: Lennerz et al. (2021).

Além disso, em um estudo exploratório com participantes da Alemanha, a revisão aponta que quem já tinha alterações metabólicas prévias apresentou melhora em HbA1c e triglicerídeos (enquanto participantes previamente saudáveis não mostraram o mesmo padrão).

3) Doença inflamatória intestinal: remissão clínica e qualidade de vida

Um dos achados mais relevantes, quando se olha apenas para os desfechos clínicos positivos, vem da série de casos em doença inflamatória intestinal. A revisão relata:

  • Remissão clínica em todos os participantes descritos (n = 7)
  • Melhora de PCR, calprotectina fecal e status de ferro (Fe)
  • Redução de medicação em parte dos casos (n = 5)
  • Aumento marcante no escore de qualidade de vida (IBDQ 95 vs. 216)
  • Em trechos do texto, a revisão ainda exemplifica quedas substanciais de calprotectina (ex.: 3300 → 870 µg/g; 4291 → 9 µg/g).

  • Estudo de referência: Norwitz & Soto-Mota (2024).

Esse conjunto de achados é clinicamente chamativo porque combina sintomas, biomarcadores e qualidade de vida — ainda que o desenho do estudo (série de casos) não permita concluir que o resultado seja garantido para todos.

4) Sintomas ginecológicos e dermatológicos: remissão em relato de caso com seguimento longo

A revisão também inclui um relato de caso em que uma paciente com candidíase vulvovaginal recorrente e hidradenite supurativa vaginal apresentou:

Por ser um caso único, esse tipo de evidência não serve para generalizar resultados, mas mostra o tipo de desfecho que tem motivado interesse clínico em estratégias de eliminação alimentar em situações específicas.

5) Nutrientes: pontos fortes quando o cardápio é bem planejado

Entre os trabalhos incluídos, há análises de composição nutricional sugerindo que certas versões do padrão carnívoro podem atingir altas quantidades de alguns micronutrientes. Por exemplo, um estudo-modelo citado na revisão descreve maior aporte de vitamina A, vitaminas do complexo B (B2, B6, B12) e minerais como zinco, fósforo e selênio, dependendo do plano alimentar montado — o que reforça a ideia de que os resultados variam muito conforme escolhas práticas (tipo de carnes, presença de vísceras, inclusão de laticínios, etc.).

Leitura responsável desses “positivos”

A própria revisão enfatiza que a evidência disponível ainda é muito limitada, com amostras pequenas, duração curta e ausência de grupos controle em grande parte dos estudos. Portanto, os desfechos favoráveis acima devem ser entendidos como sinais iniciais — mais úteis para orientar novas pesquisas e para identificar contextos clínicos em que os resultados parecem mais promissores (por exemplo, séries de casos em doença inflamatória intestinal), do que como “prova definitiva”.

Ainda assim, ao focar nos resultados positivos, o quadro que emerge é relativamente consistente em três pontos: (1) aumento de saciedade, (2) melhora relatada de alguns marcadores inflamatórios/metabólicos, e (3) possíveis benefícios clínicos em situações específicas, com relatos de redução de medicações em parte dos pacientes avaliados.

Fonte: https://doi.org/10.3390/nu18020348

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