Carboidratos quase zerados, T3 mais baixo e maior “custo” de proteína: o que um estudo controlado observou em homens saudáveis


Uma dúvida comum em dietas cetogênicas e carnívoras

Ao reduzir carboidratos de forma importante, muitas pessoas se deparam com um resultado de exame que assusta: T3 mais baixo. Em redes sociais, isso costuma virar sinônimo de “tireoide piorou”. O estudo publicado na Clinical Endocrinology em 2001 foi desenhado para responder, de forma bem controlada, uma pergunta objetiva: o que acontece com hormônios tireoidianos, gasto energético e perda de proteína corporal quando os carboidratos são quase eliminados, mas as calorias são mantidas?

O que foi testado

Os pesquisadores acompanharam 6 homens saudáveis em três fases, cada uma com 11 dias. A alimentação foi líquida e rigorosamente controlada, principalmente para que a ingestão fosse precisa e comparável. Em todas as fases:

  • As dietas foram isocalóricas (ou seja, sem corte de calorias).
  • A proteína foi mantida em 15% das calorias em todas as fases (mesma proporção de proteína).
  • O que mudou foi a quantidade de carboidratos e gordura:
  1. Alta em carboidratos: 85% carboidratos
  2. Controle (mista): 44% carboidratos e 41% lipídios
  3. Quase sem carboidratos: 2% carboidratos e 83% lipídios

Ao final de cada fase, foram medidos:

  • Hormônios tireoidianos (T3, T4, T4 livre, T3 reverso e TSH)
  • Gasto energético de repouso (por calorimetria indireta)
  • Nitrogênio urinário em 24h (um marcador usado para estimar balanço de nitrogênio, isto é, se o corpo está ganhando ou perdendo proteína corporal de forma líquida)

Antes dos resultados: o que significam T3, T3 reverso e TSH na prática

Para facilitar a leitura:

  • T3 (triiodotironina) é um dos hormônios tireoidianos mais ligados aos efeitos nos tecidos.
  • T4 (tiroxina) é outro hormônio produzido pela tireoide que pode ser convertido em T3.
  • T3 reverso (rT3) é uma forma que, de maneira simplificada, costuma ser interpretada como “via alternativa” de conversão do T4, frequentemente observada em contextos de mudanças metabólicas específicas.
  • TSH é o hormônio que “estimula” a tireoide; quando sobe, muitas vezes sugere que o corpo está pedindo mais produção tireoidiana.

O estudo foi útil porque mediu esse conjunto ao mesmo tempo, em um cenário controlado.

Impacto na tireoide e nos hormônios tireoidianos: o que mudou

Na fase quase sem carboidratos, após 11 dias, ocorreu um padrão consistente:

  • T3 mais baixo: aproximadamente 1,12 nmol/L, comparado à fase controle (aprox. 1,78 nmol/L) e à fase alta em carboidratos (aprox. 1,71 nmol/L).
  • T3 reverso mais alto: aproximadamente 0,31 nmol/L, comparado à fase controle (aprox. 0,24 nmol/L) e à fase alta em carboidratos (aprox. 0,21 nmol/L).
  • T4 livre mais alto na fase quase sem carboidratos.
  • TSH sem mudança importante entre as fases (valores em torno de 1,7–1,9 mE/L, sem diferença significativa reportada).

Ponto-chave: ao quase zerar carboidratos com calorias mantidas, o T3 caiu e o T3 reverso subiu, mas isso não veio acompanhado de um aumento claro do TSH no período avaliado.

Isso foi “positivo” ou “negativo” para a tireoide?

O estudo não foi desenhado para dizer “melhorou” ou “piorou” a tireoide no sentido clínico amplo. O que ele mostra com clareza é:

  • Houve mudança no perfil hormonal (T3 mais baixo e rT3 mais alto).
  • Não houve sinal de estímulo aumentado via TSH no curto prazo.

Portanto, o resultado não prova, por si só, que houve hipotireoidismo clínico, mas confirma que um padrão de T3 mais baixo pode aparecer rapidamente com carboidratos muito baixos, mesmo sem reduzir calorias.

Gasto energético: o metabolismo “desacelerou”?

Um dos pontos mais importantes para quem teme que “T3 baixo = metabolismo mais lento” foi este:

  • O estudo relata que o gasto energético de repouso não diminuiu de forma relevante entre as dietas, mesmo quando o T3 ficou mais baixo na fase quase sem carboidratos.

Ponto-chave: naquele cenário isocalórico e de curto prazo, a queda do T3 não se traduziu em queda do gasto energético de repouso.

O ponto mais sensível para quem faz baixo carboidrato: proteína corporal e catabolismo

Aqui está o desfecho mais direto e, para muitas pessoas, o mais relevante.

Os pesquisadores mediram o nitrogênio urinário em 24 horas, que aumenta quando há maior eliminação de compostos nitrogenados. No estudo, o nitrogênio urinário subiu conforme o carboidrato caiu:

  • Alta em carboidratos: 10,91 ± 0,67 g/24h
  • Controle: 12,79 ± 1,14 g/24h
  • Quase sem carboidratos: 15,89 ± 1,10 g/24h

Além disso, os autores descrevem que, na fase quase sem carboidratos, isso se associou a balanço de nitrogênio negativo, que é compatível com perda líquida de proteína corporal naquele período de 11 dias.

O que isso significa

Dentro daquele protocolo específico, o corpo eliminou mais nitrogênio quando os carboidratos foram quase zerados, o que sugere maior “custo” de proteína corporal naquele curto prazo.

Isso não é uma afirmação sobre todas as dietas cetogênicas ou carnívoras do mundo real; é uma descrição do que foi observado em homens saudáveis, com dieta líquida, calorias mantidas e proteína fixa em 15% das calorias.

Outros hormônios e marcadores: o corpo mudou de combustível

O estudo também encontrou alterações coerentes com baixa oferta de carboidratos:

  • Ácidos graxos livres mais altos (maior mobilização de gordura)
  • C-peptídeo mais baixo (menor secreção de insulina no contexto do estudo)
  • IGF-1 mais baixo
  • Glicose de jejum levemente menor
  • Leptina sem diferença clara no período

Esses dados reforçam que, naquele cenário, o organismo estava operando com baixa disponibilidade de carboidratos e maior dependência de gordura.

E a dieta ser líquida: isso explica o catabolismo?

Este estudo não permite afirmar isso.

  • O formato líquido foi utilizado para controle rigoroso da ingestão, mas o artigo não compara dieta líquida versus dieta sólida.
  • Portanto, não há como atribuir o aumento de nitrogênio urinário ao fato de ser líquido, porque essa comparação simplesmente não foi realizada.

O máximo que dá para dizer, com base na fonte, é que os resultados ocorreram no contexto de uma dieta líquida controlada, e não que a forma líquida tenha sido a causa.

O que uma pessoa em dieta cetogênica/carnívora pode entender deste estudo

O estudo oferece três mensagens objetivas, úteis e honestas:

  1. Carboidratos quase zerados podem reduzir o T3 e aumentar o T3 reverso em curto prazo, mesmo quando a pessoa não está em déficit calórico.
  2. Essa queda do T3 não veio acompanhada de queda do gasto energético de repouso no período observado.
  3. O sinal desfavorável no experimento foi o aumento do nitrogênio urinário e a descrição de balanço de nitrogênio negativo, sugerindo maior perda líquida de proteína corporal naquela fase.

Tudo isso, porém, deve ser lido dentro dos limites:

  • Amostra pequena (6 homens).
  • Duração curta (11 dias por fase).
  • Dieta líquida e altamente controlada.
  • Proteína fixa em 15% das calorias, sem testar outras quantidades.

Esses limites não invalidam o estudo; eles apenas definem com precisão até onde ele pode ser usado como evidência.

Fonte: https://doi.org/10.1046/j.1365-2265.2001.01158.x

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