1) Por que esse tema chama atenção na oncologia
Tumores cerebrais de alto grau, especialmente o glioblastoma (grau 4), estão entre as neoplasias mais agressivas do sistema nervoso central. A classificação recente da OMS descreve o glioblastoma IDH-wildtype como grau 4, tipicamente associado a achados como necrose e/ou proliferação microvascular. Referência (OMS/WHO 2021 – revisão).
No tratamento oncológico padrão, é amplamente citado o modelo de cirurgia quando possível, seguida de radioterapia e temozolomida (protocolo de Stupp), que se consolidou como referência após ensaio clínico publicado no New England Journal of Medicine. Stupp et al., NEJM (2005).
É nesse contexto que dietas cetogênicas aparecem como hipótese terapêutica complementar ou alternativa. No material analisado aqui, os autores afirmam que estudos em grupos com a dieta cetogênica “clássica” forneceram, até então, pouca ou nenhuma evidência de benefício em prolongar sobrevida, e por isso apresentam dados descritivos de três pacientes acompanhados com um protocolo específico.
2) O que foi apresentado
O trabalho “Treatment of high-grade brain tumor using the paleolithic ketogenic diet (PKD): Three cases” foi apresentado como pôster em conferência (The Staffan Lindeberg Memorial Conference, Lisboa, 2017).
Os autores descrevem a dieta cetogênica paleolítica (no texto original, paleolithic ketogenic diet – PKD) como uma abordagem baseada em carne e gordura (“full meat-fat diet”), com relato de alta adesão e cetose constante/estável nos casos acompanhados.
3) Quem eram os pacientes
Todos com início do protocolo alimentar em diferentes momentos após o diagnóstico:
- Paciente 1: 57 anos, tumor grau 3 (oligodendroglioma anaplásico), sem cirurgia/quimio/radioterapia; com hipertensão; início do protocolo em 0,5 mês após diagnóstico; duração relatada de 25 meses; adesão alta, com menção a aumento de ingestão alimentar no primeiro ano e pequenas quantidades de álcool e café.
- Paciente 2: 53 anos, glioblastoma grau 4 recorrente, com cirurgia e radioterapia/quimioterapia previamente; histórico adicional de câncer de bexiga; início do protocolo em 8 meses após diagnóstico; duração relatada de 14 meses, com adesão alta e descrição de estabilidade/progressão livre durante o acompanhamento.
- Paciente 3: 37 anos, glioblastoma grau 4 de início recente, com cirurgia; radioterapia descrita como concomitante na tabela e, no texto, como iniciada após período inicial com dieta isolada; início do protocolo em 1,5 mês; duração relatada de 11 meses; a partir do 3º mês, constam terapias adicionais (incluindo HBOT e esteroide, além de suplementos).
4) O que aconteceu durante o acompanhamento
Os autores descrevem três trajetórias distintas:
- Paciente 1: no início, havia excesso de peso e ocorreu perda de 25 kg nos primeiros nove meses, período em que o tamanho tumoral foi descrito como relativamente estável. Depois, o pôster relata aumento gradual do tumor, precedido por aumento progressivo da ingestão alimentar, com elevação de parâmetros inflamatórios; após orientação para reduzir ingestão e interromper café/álcool, os marcadores inflamatórios teriam diminuído novamente.
- Paciente 2: após recidiva do glioblastoma apesar de cirurgia e radioquimioterapia prévias, o paciente interrompeu o tratamento oncológico e iniciou a dieta como “terapia isolada”; no momento do relato, estava em acompanhamento por 14 meses, descrito como progressão-livre.
- Paciente 3: permaneceu com tamanho tumoral estável por dois meses usando a dieta como terapia isolada. Em seguida, mesmo sem sintomas segundo o texto, decidiu realizar radioterapia; também iniciou suplementos e oxigenoterapia hiperbárica (HBOT). A partir desse ponto, o pôster relata progressão da doença e óbito aos 11 meses após início da dieta. Descrição do caso 3.
5) Como interpretar esses achados com rigor
Este material é um relato de três casos apresentado em contexto de conferência. Isso traz limitações metodológicas que impedem concluir eficácia:
- Não há grupo controle, randomização ou mascaramento, o que impossibilita atribuir causalidade à dieta.
- Os casos são heterogêneos (grau 3 vs. grau 4; recorrente vs. início recente; tratamentos prévios diferentes), o que reduz comparabilidade interna.
- No paciente 3, houve mudança de conduta (radioterapia e outras terapias), criando potenciais fatores de confusão difíceis de separar em um relato descritivo.
- O próprio pôster reconhece o pano de fundo: a literatura com dietas cetogênicas “clássicas” em oncologia, segundo os autores, não teria mostrado benefício claro de sobrevida em estudos de grupo até então, o que reforça que o trabalho tem caráter exploratório/gerador de hipótese, não confirmatório.
6) Mensagem prática
O artigo documenta que, nesses três casos, foi possível manter um protocolo alimentar descrito como “carne e gordura” com relato de cetose estável e alta adesão, e descreve evoluções clínicas diferentes entre pacientes. O material também ilustra um ponto essencial em oncologia: quando se avalia qualquer intervenção, é necessário distinguir observação clínica individual de evidência robusta de eficácia (tipicamente derivada de ensaios clínicos e séries maiores com metodologia apropriada).
Fonte: https://nutriintervention.com/en/news/treatment-of-high-grade-brain-tumor-using-the-paleolithic-ketogenic-diet-pkd-three-cases/37

