A carne vermelha frequentemente aparece em manchetes de saúde como sinônimo de risco. Muitas vezes, a mensagem é simplificada: quanto mais carne, maior o perigo. O estudo conduzido pela Penn State mostra que a realidade é mais complexa e que o contexto alimentar em que a carne está inserida faz toda a diferença. Em vez de avaliar a carne isoladamente, os pesquisadores testaram seu consumo dentro de um padrão reconhecido pela ciência como saudável: a dieta mediterrânea.
Como o estudo foi feito
- Participantes: 30 adultos saudáveis.
- Duração: quatro fases de 4 semanas cada.
- Dietas comparadas:
- Mediterrânea com 14 g/dia de carne magra.
- Mediterrânea com 71 g/dia de carne magra.
- Mediterrânea com 156 g/dia de carne magra.
- Dieta média americana com 71 g/dia de carne magra.
Todas as refeições foram preparadas e fornecidas pelos pesquisadores, evitando erros comuns de recordatório alimentar. Esse desenho experimental aumenta a confiabilidade dos resultados.
O que os pesquisadores avaliaram
- TMAO no sangue e na urina – metabólito formado a partir de colina e carnitina.
- Microbiota intestinal – diversidade e composição das bactérias intestinais.
- Outros metabólitos da carne, como carnitina e colina.
Resultados principais
Carne e TMAO
Mesmo quando a carne bovina magra chegou a 156 g/dia, dentro da dieta mediterrânea não houve aumento dos níveis de TMAO. Todos os valores permaneceram abaixo do limite clínico de risco.
Quando comparada a dieta mediterrânea com 71 g de carne à dieta americana com a mesma quantidade, o padrão mediterrâneo apresentou TMAO significativamente mais baixo.
Carne e microbiota intestinal
As versões mediterrâneas com carne resultaram em maior diversidade bacteriana no intestino. Esse dado é considerado positivo, pois a diversidade microbiana está associada a melhor metabolismo e equilíbrio imunológico. A dieta americana não produziu o mesmo efeito, mesmo tendo a mesma dose de carne.
Nutrientes da carne
O aumento da ingestão de carne elevou os níveis de carnitina no sangue, mas sem gerar mais TMAO. Isso sugere que, em um contexto saudável, o corpo utiliza bem os nutrientes da carne sem efeitos adversos.
O que isso significa
Os resultados deixam claro que a carne não pode ser analisada isoladamente. O contexto da dieta é determinante. Dentro de um padrão Mediterrâneo, a carne bovina magra:
- não elevou marcadores de risco cardiovascular,
- contribuiu para maior diversidade intestinal,
- ofereceu proteínas e micronutrientes de alta qualidade.
Assim, o problema não está na carne em si, mas em como ela é inserida no conjunto da alimentação.
Limitações
O estudo foi conduzido apenas em adultos saudáveis e teve duração limitada a quatro semanas por fase. Portanto, não é possível estender automaticamente os resultados para pessoas com doenças crônicas ou para prazos mais longos. Ainda assim, por se tratar de um ensaio clínico bem controlado, os dados são robustos e reforçam a importância de avaliar o padrão alimentar completo.
Conclusão
A pesquisa mostra que a carne bovina magra pode fazer parte de uma dieta mediterrânea sem representar risco adicional e até contribuindo para benefícios na microbiota intestinal. O verdadeiro ponto central não é eliminar a carne, mas entender que o contexto alimentar é o que define seus efeitos sobre a saúde.
Fonte: https://doi.org/10.1161/JAHA.125.041063
