Na segunda metade do século XIX, a medicina já reconhecia que a alimentação era a base do cuidado ao diabetes. Sem insulina ou fármacos modernos, médicos clínicos recorriam sobretudo à dieta. Em 1883, Dujardin-Beaumetz, professor de clínica terapêutica em Paris, apresentou um relatório detalhado no The Boston Medical and Surgical Journal (atual NEJM) no qual a ênfase recaía sobre carnes, vísceras e gorduras animais como sustentação metabólica para o paciente diabético.
Alimentos animais como matriz energética
O raciocínio era fisiológico: sem açúcares e féculas, era preciso garantir reposição adequada de carbono e nitrogênio. Apenas os alimentos de origem animal forneciam:
- Proteína de alta densidade para repor nitrogênio e manter massa corporal.
- Gorduras como principal fonte de energia, sem elevar a glicosúria.
- Digestibilidade e saciedade superiores em comparação a farinhas adulteradas, como os pães de glúten com alto teor de amido.
O artigo reforçava que a carne “pura” em excesso poderia ser pesada, mas quando equilibrada com gorduras, fornecia nutrição completa sem agravar o diabetes.
Diversidade de opções animais
O cardápio era amplamente construído a partir de alimentos animais:
- Carnes vermelhas e brancas: boi, carneiro, vitela, aves, caça.
- Peixes e frutos do mar: alternativa leve e nutritiva.
- Vísceras: rins, fígado, cérebro e língua, valorizadas pela riqueza nutricional.
- Caldos e molhos preparados em gordura, que aumentavam densidade energética.
- Gorduras animais e óleos: recomendados sem restrição, pela capacidade de fornecer energia estável.
Esse conjunto era descrito como capaz de sustentar o paciente por longos períodos, reduzindo a perda de peso e mantendo força física.
Comparação com vegetais e farináceos
Enquanto pães e farinhas apresentavam risco de conter altos teores de amido, mesmo quando rotulados como “pães de glúten”, os alimentos de origem animal ofereciam segurança terapêutica: não elevavam diretamente a glicosúria e traziam estabilidade na evolução clínica.
As verduras e frutas, embora toleradas em pequenas quantidades, eram vistas como auxiliares, e não como base da dieta. A verdadeira sustentação vinha da carne e da gordura.
Benefícios observados na prática clínica
Os relatos apontavam que pacientes que conseguiam aderir à dieta baseada em alimentos animais apresentavam:
- Redução progressiva da glicosúria.
- Melhora da força e da disposição física, quando comparados a regimes com excesso de pão ou farináceos.
- Controle da fome e maior estabilidade calórica.
- Maior adesão quando gorduras eram usadas generosamente, em vez de limitar-se apenas à carne magra.
Conclusão
Na experiência clínica do século XIX, os alimentos de origem animal não eram apenas tolerados, mas considerados a base mais segura e eficaz do tratamento dietético do diabetes. Carnes, vísceras e gorduras forneciam energia, mantinham o peso e reduziam a eliminação de açúcar pela urina. Essa ênfase revela como os médicos da época perceberam, de forma empírica, que a nutrição animal-based oferecia vantagens práticas e clínicas frente a qualquer outra alternativa disponível.
Fonte: http://doi.org/10.1056/NEJM188311221092101
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