Rockefeller, os “homens da medicina”: medicina e capitalismo nos Estados Unidos


No fim do século XIX e começo do século XX, a medicina nos Estados Unidos passou por uma transformação rápida: de um campo fragmentado, com múltiplas “seitas” terapêuticas e baixa capacidade de impor regras, para um sistema profissional altamente organizado, capaz de controlar formação, credenciamento e acesso ao exercício da profissão. O livro de E. Richard Brown reconstrói esse processo como parte da história do capitalismo corporativo e das instituições que o sustentaram.

Logo na introdução, Brown afirma que a crise contemporânea do sistema de saúde (custos, inflação e dificuldade de acesso) estaria enraizada nessa história “entrelaçada” entre medicina moderna e capitalismo corporativo. Ele exemplifica o problema do custo com números de despesas nacionais e descreve também a contradição de um sistema “pleno” de tecnologias e, ainda assim, com barreiras para cuidados básicos e distribuição desigual de médicos e serviços.

A tese central: ciência médica como ferramenta social e econômica

Um ponto-chave do argumento é que a “medicina científica” não seria apenas um avanço técnico inevitável, mas também uma estratégia social: ela ajudou a elevar o prestígio da profissão, reduzir concorrência e, ao mesmo tempo, alinhar a medicina a prioridades de uma sociedade industrial e corporativa.

Brown descreve a lógica do período: grupos dominantes teriam visto na medicina científica um instrumento para aumentar produtividade e estabilidade social, além de oferecer uma narrativa que tende a separar adoecimento de desigualdades e condições de trabalho.

Filantropia “estratégica” e o redesenho da educação médica

O livro dá destaque às fundações filantrópicas como atores com capacidade de impor rumo institucional. A argumentação é direta: quem aporta capital externo passa a ter poder de ditar condições para reformas na educação médica.

O papel do Relatório Flexner e do capital filantrópico

Brown sustenta que o Relatório Flexner, apoiado pela Carnegie Foundation, teve efeito indireto decisivo: não apenas criticou escolas, mas “educou” filantropos a financiar um modelo de escola médica orientado à pesquisa e à medicina científica. Na sequência, a General Education Board (ligada ao universo Rockefeller) teria intensificado os aportes, chegando a dezenas de milhões de dólares destinados à educação médica em poucos anos.

Como as fundações “amarravam” as reformas

Um mecanismo recorrente descrito por Brown é o matching grant (doações condicionadas a contrapartidas), que aumentava o impacto financeiro e também disciplinava as instituições receptoras. Segundo o autor, esse tipo de financiamento foi usado para:

  • forçar escolas a adotar orientação de pesquisa;
  • subordinar hospitais de ensino à autoridade da escola médica universitária;
  • criar cargos clínicos assalariados (mudando a relação entre docência, assistência e mercado).

Um episódio citado no próprio livro ilustra o estilo desse “direcionamento”: Flexner teria sido sondado por Frederick T. Gates sobre como iniciar a reorganização da educação médica com um milhão de dólares; a proposta resultante enfatiza pôr chefias clínicas e equipes “em base salarial” como reforma central.

O resultado: um sistema poderoso, caro e tensionado

Na narrativa de Brown, o sistema que emerge se fortalece como mercado de serviços e tecnologias, com múltiplos grupos disputando posição (médicos, hospitais, seguradoras, indústria farmacêutica e fornecedores).

Ao mesmo tempo, o autor descreve um deslocamento: o médico deixa de ser apenas “provedor direto” e passa a operar como gestor do cuidado, com tarefas redistribuídas em uma força de trabalho maior e mais segmentada. Essa reorganização, para Brown, ajuda a explicar por que o sistema pode ser tecnologicamente sofisticado, porém com problemas persistentes de acesso e coordenação.

A crítica à medicina tecnológica e o “complexo médico-industrial”

No epílogo, Brown argumenta que políticas de financiamento (fundações e governo) tenderiam a favorecer abordagens técnicas e reducionistas, separando problemas de saúde de seus contextos sociais e políticos.

Ele descreve ainda a convergência de interesses que impulsiona tecnologias caras: médicos, hospitais, cientistas e corporações formariam uma relação simbiótica em torno de um sistema de cuidados como commodities. Nesse trecho, Brown também registra a dinâmica na qual grande parte do “capital de risco” para pesquisa pode vir do setor público, enquanto a apropriação de lucros tende a ocorrer no setor privado, e decisões de desenvolvimento de produtos se orientam por expectativa de rentabilidade.

Fecho: por que esse livro segue sendo citado

A relevância do livro, no próprio quadro que ele propõe, está em mostrar que a medicina moderna não se organizou apenas por descobertas e boas práticas clínicas, mas também por instituições, dinheiro, governança e disputas de poder. Na leitura de Brown, compreender essa “engenharia social” é parte do caminho para entender por que um sistema pode, ao mesmo tempo, produzir avanços científicos e manter crises de custo, acesso e prioridades.

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