Resistência à cetose em sujeitos obesos (1959)


Em 1959, um artigo publicado no The Lancet chamou atenção para uma observação clínica curiosa: pessoas com obesidade pareciam entrar em cetose com mais dificuldade do que pessoas sem obesidade. Em vez de tratar essa diferença como mera impressão clínica, os autores decidiram testá-la de forma experimental. O estudo ficou conhecido como “Resistance to ketosis in obese subjects”, de A. Kekwick, G. L. S. Pawan e T. M. Chalmers.

O raciocínio do trabalho era simples. Se a cetose depende do equilíbrio entre a produção de corpos cetônicos pelo fígado e a sua utilização ou excreção pelo organismo, então haveria duas explicações possíveis para a menor cetose observada em pessoas com obesidade: ou elas estariam “queimando” ou eliminando esses corpos cetônicos mais rapidamente, ou estariam produzindo menos cetonas desde o início. Foi exatamente isso que os autores tentaram separar.

Na primeira parte do estudo, os pesquisadores administraram beta-hidroxibutirato por via intravenosa em 6 indivíduos com obesidade e 6 sem obesidade, em dose proporcional ao peso corporal. Depois repetiram o experimento em 2 participantes de cada grupo com dose dobrada. O resultado foi importante: o pico de cetonas no sangue e a velocidade de queda depois da infusão foram muito parecidos entre os grupos. Além disso, menos de 1% da dose administrada apareceu na urina, sem diferença relevante entre obesos e não obesos. Em outras palavras, o estudo não encontrou evidência de que a resistência à cetose fosse explicada por maior excreção urinária ou por uma utilização muito mais rápida das cetonas.

Na segunda parte, o experimento ficou ainda mais interessante. Os autores colocaram 14 indivíduos com obesidade e 8 sem obesidade em uma dieta de 1000 calorias por dia, com 90% das calorias vindas da gordura. A ingestão diária de carboidratos era de apenas 12 g. Era, portanto, um cenário que, em teoria, deveria favorecer bastante a produção de cetonas. Mesmo assim, o que se observou foi que os participantes com obesidade tiveram uma subida mais lenta e menor das cetonas no sangue, enquanto os participantes sem obesidade desenvolveram cetose com muito mais facilidade.

O contraste clínico foi marcante. Segundo o artigo, todos os indivíduos com obesidade conseguiram manter a dieta pelo tempo necessário ao protocolo. Já no grupo sem obesidade, 7 dos 8 participantes precisaram interromper a dieta até o quinto dia, e o último saiu no oitavo dia, por sintomas atribuídos à cetose, como cefaleia, anorexia e náusea. Isso não significa que cetose seja automaticamente “ruim”, mas mostra que, naquele contexto experimental, os participantes magros apresentaram uma resposta metabólica mais rápida e também mais sintomática.

Outro ponto que chamou atenção foi a glicemia. Nos indivíduos sem obesidade, houve queda significativa da glicose de jejum em quase todos os casos. Nos indivíduos com obesidade, essa queda foi ausente ou muito menor. O aumento das cetonas, no grupo sem obesidade, aparecia em geral depois dessa redução da glicemia. Já no grupo com obesidade, como a queda da glicose foi bem menos evidente, a cetose também foi menor. O estudo ainda avaliou o balanço de nitrogênio e observou que os não obesos estavam em balanço negativo, sugerindo maior quebra de proteína corporal, enquanto os obesos permaneceram perto do equilíbrio.

A interpretação dos autores foi direta: a diferença não parecia estar na eliminação nem no uso das cetonas, mas provavelmente em uma menor produção de corpos cetônicos em pessoas com obesidade, pelo menos naquele modelo experimental. Eles também levantaram a hipótese de que esses indivíduos poderiam estar conseguindo gerar mais carboidrato a partir de fontes não proteicas, o que ajudaria a preservar a glicose sanguínea e retardaria a entrada em cetose. É importante notar que essa foi uma interpretação dos autores baseada nos dados observados, e não uma conclusão definitiva sobre todo metabolismo humano. O próprio artigo reconhece as incertezas fisiológicas envolvidas.

Visto hoje, o estudo tem valor principalmente histórico e fisiológico. Ele foi pequeno, antigo e feito em um contexto experimental muito diferente dos protocolos modernos de dieta cetogênica. Ainda assim, ele documentou algo que continua relevante: nem todos os organismos entram em cetose da mesma forma, na mesma velocidade ou com a mesma intensidade. Isso ajuda a lembrar que respostas metabólicas variam, e que usar régua única para todos costuma funcionar bem apenas na teoria.

Para quem observa a discussão atual sobre cetose, emagrecimento e obesidade, esse trabalho de 1959 serve como um lembrete útil. O metabolismo humano não costuma obedecer slogans. Mesmo quando a dieta parece “perfeita no papel”, a resposta do corpo pode ser muito diferente de uma pessoa para outra. E, às vezes, um artigo antigo consegue mostrar isso com uma clareza que muita discussão moderna ainda não alcançou.

Fonte: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(59)91737-4

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