Em 1989, pesquisadores avaliaram se o tipo de gordura da dieta poderia mudar o desenvolvimento de doença hepática alcoólica (DHA) em um modelo experimental com ratos. O trabalho parte de uma ideia objetiva: “gordura na dieta” não é uma coisa só — a composição de ácidos graxos pode alterar o dano hepático induzido pelo álcool.
Como o experimento foi feito
Os autores usaram ratos machos e ofereceram por 2 a 6 meses uma dieta totalmente líquida e “nutricionalmente adequada”, na qual:
- Proteína: 25% das calorias
- Gordura: 25% das calorias
- Carboidrato: 50% das calorias
A diferença entre os grupos foi a fonte de gordura:
- Sebo bovino (tallow)
- Banha suína (lard)
- Óleo de milho (corn oil)
No grupo “álcool”, a glicose foi substituída isocaloricamente por etanol (ou seja, a energia total da dieta foi mantida, trocando-se parte do carboidrato por álcool). Os animais foram pareados (pair-fed) com controles que recebiam a mesma dieta, sem etanol. Os autores acompanharam enzimas hepáticas (ALT) e realizaram biópsias mensais, avaliando ao microscópio esteatose (gordura no fígado), necrose, inflamação e fibrose, somadas em um escore total.
O detalhe-chave: quanto ácido linoleico havia em cada gordura
O estudo destaca que a gravidade do dano hepático acompanhou a proporção de ácido linoleico (18:2) na gordura da dieta:
- Sebo bovino: 0,7%
- Banha suína: 2,5%
- Óleo de milho: 56,6%
O que os pesquisadores observaram no fígado
A progressão do escore hepático e as imagens histológicas mostraram um padrão consistente:
- Etanol + sebo bovino (tallow): os autores relatam ausência das características de DHA, com histologia descrita como normal, inclusive em animais que chegaram a 6 meses.
- Etanol + banha suína (lard): houve doença mínima a moderada, com achados intermediários.
- Etanol + óleo de milho (corn oil): apareceu o quadro mais intenso, com esteatose marcada, além de inflamação, necrose e fibrose em diferentes tempos; as figuras do artigo ilustram desde degeneração balonizante e necrose pericentral até cicatrizes “em ponte” após 6 meses.
De forma visual, isso é especialmente claro:
- Na Figura 2, o escore médio do fígado “sobe” junto com o percentual de ácido linoleico na dieta (0,7% → 2,5% → 56,6%).
- Na Figura 3 (página 3), o fígado com etanol + sebo é apresentado como normal, enquanto o grupo etanol + óleo de milho exibe achados compatíveis com lesão progressiva (gordura difusa, inflamação, necrose e fibrose).
Como os autores interpretaram esses achados
Os próprios autores propõem que o ácido linoleico pode facilitar o desenvolvimento de DHA nesse modelo e discutem possíveis ligações com vias inflamatórias e derivados do ácido araquidônico (eicosanoides), além de literatura experimental prévia sobre mitocôndrias e estresse oxidativo em contexto de etanol. Essa interpretação é apresentada como hipótese explicativa para a diferença de gravidade entre as gorduras testadas.
O que este estudo não permite concluir
Para evitar leituras erradas, o próprio desenho do estudo impõe limites claros:
- É um estudo em ratos, não em humanos. O metabolismo de álcool, gorduras e a progressão de lesões não são equivalentes, e isso reduz a extrapolação direta.
- A dieta foi líquida e o modelo envolveu substituição isocalórica de glicose por etanol, com controle por “pair-feeding”. Isso é útil para isolar variáveis no laboratório, mas não reproduz fielmente padrões alimentares do cotidiano.
- O grupo com sebo teve menor ganho de peso, e os autores atribuem isso, ao menos em parte, a deficiência de ácidos graxos essenciais, potencialmente agravada pelo etanol. Esse ponto é relevante porque uma deficiência nutricional pode, por si, alterar vias metabólicas e inflamatórias e influenciar desfechos.
- O estudo compara fontes específicas (óleo de milho, banha, sebo) e seus perfis de ácidos graxos; não testa “gordura” como categoria genérica nem define, por si só, como pessoas devem compor dietas na prática.
Resumo
Dentro deste modelo experimental, o estudo relata um gradiente consistente: quanto maior o ácido linoleico da gordura da dieta, maior o escore de lesão hepática associada ao etanol; e, nas condições testadas, o sebo bovino foi associado à ausência de achados histológicos de DHA, enquanto o óleo de milho se associou aos achados mais severos.
Fonte: https://doi.org/10.1111/j.1530-0277.1989.tb00276.x
