Sabor dos alimentos e conteúdo de macronutrientes: diferentes associações com a fome autorrelatada e o desejo de comer

A fome é uma das sensações mais básicas do ser humano. Todo mundo já sentiu aquele incômodo no estômago, a queda de energia ou a dificuldade de concentração que surgem quando o corpo precisa de combustível. Porém, existe uma diferença importante entre sentir fome de verdade e simplesmente ter vontade de comer algo gostoso. Um estudo publicado em 2026 na revista Food Quality and Preference, conduzido por pesquisadoras da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, investigou justamente essa questão e trouxe resultados que ajudam a entender melhor o que está por trás dessas duas sensações.

O que o estudo investigou

As pesquisadoras Julie Wallis e Katherine M. Appleton partiram de uma pergunta aparentemente simples: fome e desejo de comer são a mesma coisa? Embora no dia a dia as pessoas usem essas expressões quase como sinônimos, a literatura científica já vinha apontando que podem existir diferenças sutis entre elas. A fome, do ponto de vista biológico, é uma resposta do organismo à necessidade de obter energia para manter o funcionamento adequado do corpo, o que os pesquisadores chamam de homeostase. Já o desejo de comer pode surgir mesmo quando o corpo não precisa de combustível, motivado pelo prazer que certos alimentos proporcionam.

Para investigar essa diferença, o estudo contou com 172 participantes, com idades entre 18 e 45 anos, que preencheram questionários em até quatro ocasiões diferentes. No total, foram analisadas 338 respostas. Os participantes avaliaram, em escalas padronizadas, o quanto estavam com fome, o quanto desejavam comer e, em seguida, classificaram o desejo de consumir 60 alimentos diferentes. Esses alimentos variavam em sabor (doce ou salgado), no macronutriente predominante (carboidrato, gordura ou proteína) e no contexto habitual de consumo (como parte de uma refeição ou como lanche).

Como a pesquisa foi conduzida

Os questionários foram aplicados presencialmente, em papel, em diferentes horários do dia. Essa escolha foi proposital: a maioria dos estudos sobre alimentação é realizada em horários de refeição, quando a fome pode estar muito alta ou muito baixa, sem nuances intermediárias. Ao incluir momentos variados, as pesquisadoras buscaram captar situações em que fome e desejo de comer pudessem se manifestar de formas distintas.

Os 60 alimentos foram selecionados com a ajuda de nutricionistas e incluíam desde itens como batata assada, pão, bacon e bife até frutas, bolos, biscoitos e chocolates. Cada alimento foi classificado previamente quanto ao sabor, ao macronutriente dominante e ao contexto de consumo. Os participantes avaliaram o desejo de consumir cada um desses itens naquele momento, em uma escala de 0 a 7.

O que os resultados mostraram

A análise estatística revelou, como esperado, uma correlação forte entre fome e desejo de comer. O coeficiente encontrado foi de 0,82, o que significa que, na maioria das vezes, quando uma pessoa relata estar com fome, ela também relata ter desejo de comer. Isso indica que existe um mecanismo comum subjacente às duas percepções, provavelmente ligado à necessidade biológica de obter energia.

No entanto, a correlação não foi perfeita. Algumas pessoas apresentaram diferenças consideráveis entre os dois relatos, o que reforça a ideia de que são conceitos distintos. E foi justamente nas associações com os diferentes tipos de alimento que essa distinção ficou mais evidente.

A fome autorrelatada apresentou associação positiva e significativa com o desejo por alimentos salgados, ricos em proteína e tipicamente consumidos em refeições, como carnes e peixes. Isso significa que, quanto mais fome a pessoa relatava, maior era seu desejo por esse tipo de alimento. De acordo com a literatura científica, a proteína é o macronutriente mais associado à saciedade, e o sabor salgado está frequentemente ligado a alimentos ricos nesse nutriente. Estudos anteriores já haviam demonstrado que pessoas com baixo consumo recente de proteína tendem a preferir alimentos com sabor associado a esse macronutriente.

Já o desejo de comer mostrou um padrão diferente. Ele foi associado positivamente a alimentos doces, ricos em carboidrato e gordura, típicos de refeições como sobremesas, bolos e tortas. Ao mesmo tempo, apresentou uma associação negativa com alimentos doces ricos em carboidrato consumidos como lanche, como frutas e balas. Em outras palavras, o desejo de comer parece estar mais ligado a alimentos que combinam doçura com alto teor de gordura, ou seja, alimentos altamente palatáveis, e não simplesmente a qualquer alimento doce.

O que isso significa na prática

Esses achados sugerem que a fome, quando autorrelatada, reflete mais de perto uma necessidade biológica real do organismo. O corpo, ao precisar de energia e nutrientes, parece direcionar a preferência para alimentos que historicamente estão associados à saciedade e à recuperação nutricional.

O desejo de comer, por sua vez, parece estar mais relacionado ao prazer e à recompensa que determinados alimentos proporcionam. A combinação de açúcar e gordura ativa regiões cerebrais ligadas ao sistema de recompensa, de forma semelhante ao que ocorre com outras fontes de prazer. Isso pode explicar por que tantas pessoas sentem vontade de comer doces elaborados, como bolos e sobremesas, mesmo sem estar com fome.

A distinção é relevante para a saúde pública. Quando o desejo hedônico (ligado ao prazer) se sobrepõe aos sinais de fome real, existe maior risco de consumo excessivo de alimentos ricos em açúcar e gordura, o que pode contribuir para o ganho de peso e para padrões alimentares desordenados.

Limitações do estudo

As próprias autoras reconhecem algumas limitações importantes. O estudo é observacional, o que impede conclusões sobre causa e efeito. Além disso, todos os dados foram baseados em autorrelato, o que pode estar sujeito a vieses de interpretação. A amostra foi composta predominantemente por adultos jovens, e os modelos estatísticos explicaram entre 22% e 24% da variação nos escores de fome e desejo de comer, indicando que outros fatores, como horário do dia, tempo desde a última refeição e estado emocional, também exercem influência. As pesquisadoras sugerem que estudos futuros poderiam incluir medidas biológicas objetivas, como níveis de glicose no sangue ou de grelina, para complementar os dados subjetivos.

Ainda assim, o estudo oferece uma contribuição valiosa ao demonstrar que fome e desejo de comer, embora frequentemente caminhem juntos, podem ser diferenciados pelo tipo de alimento que cada um motiva a pessoa a buscar.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.foodqual.2026.105901

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