Metabolismo de cetonas na gravidez e em recém-nascidos


Durante muito tempo, os corpos cetônicos foram tratados quase sempre como algo ligado a jejum, dieta cetogênica ou diabetes. Esta revisão publicada recentemente mostra um quadro mais amplo: na gravidez, na lactação e no período neonatal, as cetonas fazem parte de uma fisiologia importante e esperada, especialmente como fonte alternativa de energia e como matéria-prima para a formação de lipídios e esteróis necessários ao crescimento rápido do cérebro.

O ponto central do artigo é simples: cetonas não aparecem apenas em situações de doença. Em vários momentos da vida, elas participam de adaptações metabólicas normais. No fim da gestação, por exemplo, a mulher passa por mudanças hormonais que reduzem relativamente o uso de glicose e aumentam a mobilização de gordura. Esse cenário favorece a produção de corpos cetônicos, fenômeno que a literatura descreve como uma espécie de “jejum acelerado” da gravidez. A revisão relata que, na gestação tardia, as concentrações de cetonas sobem de forma relevante, inclusive após períodos de jejum relativamente curtos.

Na gravidez, as cetonas podem atravessar a placenta

Outro achado importante é que as cetonas atravessam passivamente a placenta. O líquido amniótico pode apresentar níveis de cetonas semelhantes aos do sangue materno, o que sugere que esse combustível chega ao feto. O artigo destaca que esse transporte parece ocorrer principalmente da mãe para o feto, e não por produção fetal importante. Além disso, estudos experimentais sugerem que cetonas vindas da mãe podem ser incorporadas a lipídios fetais, algo relevante porque o desenvolvimento fetal depende intensamente da construção de membranas e outras estruturas ricas em gordura.

A revisão também chama atenção para outro aspecto: as cetonas não atuam apenas como combustível. Elas também parecem participar de sinalização celular, modulação inflamatória e efeitos epigenéticos. Em linguagem mais simples, isso significa que elas podem influenciar como certos genes e vias metabólicas se comportam. No tecido placentário e em modelos de trofoblasto, o beta-hidroxibutirato foi associado à inibição do inflamassoma NLRP3, mecanismo ligado a inflamação placentária e complicações gestacionais. Ainda assim, os autores deixam claro que essa área ainda precisa de mais pesquisa.

No recém-nascido, as cetonas parecem ter papel ainda mais importante

Se na gravidez as cetonas já chamam atenção, no recém-nascido elas parecem ainda mais centrais. A revisão explica que bebês, sobretudo os nascidos a termo, apresentam alta renovação de cetonas por causa da grande demanda metabólica do cérebro em crescimento. No início da vida, a alimentação muda de uma oferta contínua de glicose pela placenta para um padrão baseado em leite materno, que é rico em gordura. Nesse contexto, a produção de cetonas sobe de forma marcante. Em lactentes, concentrações de 0,7 a 1,4 mM foram descritas, bem acima do que costuma ser visto em adultos alimentados.

O leite materno aparece como peça-chave nesse processo. A revisão descreve que ele fornece ácidos graxos que ajudam a sustentar a cetogênese neonatal. Bebês amamentados tendem a apresentar concentrações de cetonas maiores do que os alimentados com fórmula, e isso é coerente com a composição mais favorável do leite materno para esse metabolismo. O artigo ainda relata que o cérebro neonatal pode usar cetonas de forma muito intensa, inclusive para gerar fosfolipídios, esfingolipídios e colesterol, componentes fundamentais para membranas, mielina e desenvolvimento cerebral. Em termos práticos, as cetonas não estariam apenas “quebrando um galho” energético: elas participariam da própria construção do cérebro em formação.

O que os erros inatos do metabolismo ensinam

Uma das partes mais fortes da revisão é a análise dos erros inatos do metabolismo ligados à produção, transporte ou uso de cetonas. Esses quadros raros mostram, na prática, o que acontece quando essa via falha. O artigo descreve episódios potencialmente fatais de hipoglicemia com baixa cetose, cetoacidose recorrente e alterações neurológicas em crianças com defeitos nessas enzimas ou transportadores. A mensagem é direta: tanto a capacidade de produzir cetonas quanto a capacidade de utilizá-las são relevantes para sobrevivência e neurodesenvolvimento no começo da vida.

A principal conclusão

A revisão de Patrycja Puchalska apresenta uma visão mais sofisticada do tema. Ela mostra que a presença de cetonas na gravidez, na lactação e no período neonatal não deve ser interpretada automaticamente como algo patológico. Em muitos contextos, trata-se de uma adaptação fisiológica com funções energéticas e estruturais importantes. Ao mesmo tempo, o artigo reforça que ainda faltam valores de referência bem definidos para cetonas na gestação e na lactação, e faltam estudos sólidos para afirmar segurança de estratégias como dieta cetogênica, jejum intermitente ou cetonas exógenas durante a gravidez.

Em outras palavras, esta revisão não sustenta alarmismo automático contra cetonas, mas também não serve como aval para intervenções improvisadas na gestação. O que ela realmente faz é recolocar as cetonas no lugar certo: não como vilãs por definição, nem como solução mágica, mas como parte de uma biologia complexa, especialmente importante quando o corpo está formando e nutrindo uma nova vida.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.cophys.2026.100912

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