O interesse pela dieta cetogênica no transtorno do espectro autista (TEA) vem crescendo porque muitos pacientes apresentam, além das dificuldades centrais de comunicação e comportamento, queixas gastrointestinais, distúrbios do sono e, em alguns casos, epilepsia. Nesse contexto, um estudo recente avaliou se uma dieta cetogênica modificada, associada ao tratamento de reabilitação habitual, poderia trazer algum benefício adicional em crianças com TEA.
Trata-se de um ensaio clínico randomizado e controlado, realizado com crianças de 2 a 5 anos atendidas em um hospital materno-infantil na China. Ao todo, 62 crianças foram inicialmente incluídas e distribuídas em dois grupos: um recebeu a dieta cetogênica modificada junto com a reabilitação de rotina, e o outro manteve uma alimentação habitual com a mesma proposta de reabilitação. Ao final, 51 crianças completaram o acompanhamento, sendo 24 no grupo da dieta e 27 no grupo controle.
A intervenção durou oito semanas, com uma fase inicial de adaptação e, depois, um período de observação da eficácia. A proposta usada no estudo não foi a versão clássica mais rígida da dieta cetogênica. Os autores empregaram uma formulação modificada, com pó nutricional cetogênico e ajustes práticos na alimentação, restringindo principalmente alimentos ricos em amido e açúcar em parte das refeições. No almoço, as crianças eram incentivadas a priorizar vegetais, carne e ovos, com menor consumo de alimentos básicos ricos em carboidratos. Durante o processo, houve monitoramento de cetonas, glicose e possíveis reações adversas.
Para medir os resultados, os pesquisadores utilizaram duas escalas bastante conhecidas em pesquisas sobre TEA: a ABC (Autism Behavior Checklist) e a CARS (Childhood Autism Rating Scale). Ambas foram aplicadas antes e depois da intervenção para verificar mudanças nos sintomas.
Os resultados mostraram que os dois grupos melhoraram após o período de tratamento, algo importante de destacar. Mas o grupo que recebeu a dieta cetogênica modificada apresentou melhora maior do que o grupo controle nas duas escalas avaliadas. Na ABC, a mediana caiu de 68 para 56 no grupo da dieta, enquanto no grupo controle caiu de 67 para 58. Na CARS, a mediana foi de 36 para 32 no grupo da dieta, contra 35 para 33 no grupo controle. Essas diferenças entre os grupos após a intervenção foram estatisticamente significativas.
Em termos práticos, isso significa que a estratégia nutricional testada esteve associada a uma redução mais expressiva dos sintomas avaliados pelos instrumentos usados no estudo. Os próprios autores concluíram que a dieta cetogênica modificada, quando combinada ao treinamento de reabilitação, aliviou de forma significativa sintomas centrais em crianças com TEA e pode representar uma alternativa mais viável do que o modelo cetogênico clássico, especialmente por favorecer melhor adesão.
Outro ponto relevante foi a tolerabilidade. Houve perdas de seguimento e abandono em ambos os grupos, mas no grupo da dieta os autores relataram baixa incidência de reações adversas, com dois casos atribuídos à intervenção: um de diarreia e um de rash cutâneo. No total, a incidência de eventos adversos relatados nesse grupo foi de 6,45%.
O artigo também chama atenção para um aspecto importante: embora os resultados tenham sido promissores, a própria equipe reconheceu que o estudo teve amostra pequena e duração curta, de apenas dois meses. Além disso, os autores afirmaram que ainda não está claro se os benefícios se mantêm depois da suspensão da dieta e lembraram que abordagens cetogênicas, quando mantidas por mais tempo, podem exigir acompanhamento cuidadoso por causa de possíveis efeitos adversos nutricionais e metabólicos.
Na discussão, os pesquisadores também revisaram mecanismos que poderiam ajudar a explicar esses achados, como possíveis efeitos sobre neurotransmissores inibitórios, inflamação, função mitocondrial, estresse oxidativo e eixo intestino-cérebro. O artigo ainda destaca que sintomas gastrointestinais são frequentes em crianças com TEA e que alterações na digestão de carboidratos já foram descritas em parte dessa população, o que ajuda a entender por que intervenções alimentares desse tipo vêm sendo investigadas com mais atenção.
No entanto, a leitura cuidadosa do estudo pede equilíbrio. Ele não prova cura, não autoriza generalizações amplas e não deve ser interpretado como solução universal. O que ele mostra é algo mais específico e mais útil: dentro das condições avaliadas, uma dieta cetogênica modificada, aplicada com supervisão e associada à reabilitação, esteve ligada a melhora adicional nas escalas comportamentais usadas pelos autores. Para famílias e profissionais, essa é uma informação relevante, mas que ainda precisa ser confirmada em estudos maiores e mais longos.
Em outras palavras, o estudo acrescenta uma peça importante ao debate. Ele sugere que a nutrição pode, sim, ter papel terapêutico complementar em parte das crianças com TEA, desde que a intervenção seja bem planejada, monitorada e interpretada com prudência. Em saúde, esse costuma ser o ponto mais sensato: nem descartar um achado promissor cedo demais, nem transformar um resultado preliminar em certeza absoluta. O dado concreto, aqui, é que houve benefício mensurável em um ensaio controlado de curta duração, e isso já justifica mais investigação séria sobre o tema.
Fonte: https://doi.org/10.21203/rs.3.rs-6172026/v1
