Nicola Cardinale e Arnaldo Cantani: o encontro que marcou a história das dietas para diabetes (1870)


Este episódio clínico ocorreu em 3 de maio de 1870: um sacerdote italiano, Nicola Cardinale (65 anos), procurou o médico Arnaldo Cantani, em Nápoles, com sintomas clássicos atribuídos ao diabetes na época (sede intensa, urinar em excesso e perda de peso), e com açúcar na urina como principal evidência diagnóstica daquele período. Segundo o relato, Cantani aplicou uma terapia de “dieta só de carne”, além de 5 g/dia de ácido lático para ajudar na digestão, e observou melhora rápida dos sintomas, embora o açúcar na urina persistisse inicialmente.

O ponto central, porém, é o detalhe: ao investigarem por que o açúcar urinário não desaparecia, Cantani e colegas teriam lembrado que o paciente era sacerdote e, portanto, continuava celebrando a Missa. O texto reproduz a interpretação clínica atribuída ao próprio Cantani: a hóstia e o pequeno gole de vinho seriam suficientes para manter “pequenas quantidades” de açúcar na urina; ao renunciar a celebrar a Missa, “todo traço de açúcar” teria desaparecido.

A partir disso, Cantani concluiu que para casos avançados, a terapia dietética deveria excluir rigorosamente qualquer migalha de carboidrato, e Cantani usaria a palavra “cura” para significar ausência de sintomas e urina sem açúcar mesmo após reintrodução posterior de alimentos vegetais “moderadamente”. O texto ainda afirma que, em 1874, Cantani teria contabilizado mais de 150 casos vistos por ele e acreditava ter “curado” dezenas com essa abordagem.

O que a literatura médica do fim do século XIX mostra sobre “excluir carboidratos”

Uma fonte desta época é um compêndio de 1896, Food in Health and Disease, de Isaac Burney Yeo. Nessa obra, ao discutir dieta no diabetes, há uma formulação direta: os carboidratos — tudo que contém glicose ou pode virar glicose — deveriam ser excluídos “na medida do possível” da alimentação de pessoas com diabetes.

O livro também descreve um método prático da época para avaliar “tolerância”: uma “dieta padrão” sem carboidratos seria mantida até a urina ficar sem açúcar por alguns dias e, depois, quantidades crescentes de amido (por exemplo, pão branco ou biscoitos) seriam adicionadas; quando o açúcar reaparecia, estabelecia-se um limite de tolerância.

Em listas dietéticas do mesmo período, aparecem como “proibidos”: alimentos farináceos em geral, açúcar, batatas, arroz e outros amidos; e, como bebidas, há distinção entre vinhos não doces e bebidas açucaradas. Esse tipo de detalhamento ajuda a entender por que, no relato de Cantani, pequenas exceções poderiam ser consideradas relevantes pela clínica de então.

O que a ciência moderna consegue afirmar com mais segurança: cetogênica e controle do diabetes

Em uma revisão acadêmica do Journal of Clinical Investigation (2021), os autores descrevem que a restrição de carboidratos já era usada desde o século XVIII para prolongar a sobrevida de pessoas com diabetes antes da insulina, citando, por exemplo, a prescrição de John Rollo (1797), baseada principalmente em carne e gordura. (JCI)

A mesma revisão também explicita um ponto fisiológico central: carboidratos são o principal determinante da glicemia pós-prandial, e a redução de carboidratos pode diminuir picos glicêmicos e necessidade de insulina; ao mesmo tempo, afirma que ensaios longos e de alta qualidade são necessários para responder dúvidas de segurança e efetividade de longo prazo em diferentes populações.

Quando o assunto é diabetes tipo 2, estudos de intervenção com cetose nutricional (em modelos de cuidado contínuo) relatam melhora sustentada do controle glicêmico e redução de uso de fármacos em seguimentos de anos, com parte dos participantes atingindo critérios utilizados em estudos para remissão. Exemplos incluem publicações sobre esse tipo de intervenção em seguimentos prolongados disponíveis em bases biomédicas. (PubMed)

Conclusão

O episódio de Cantani e Cardinale funciona como um retrato histórico de como médicos do século XIX raciocinavam: se o açúcar urinário representava a doença, então reduzir ao máximo o que vira glicose era uma estratégia lógica; e exceções pequenas poderiam ganhar importância clínica dentro desse modelo.

A ciência contemporânea não valida “cura” de diabetes tipo 2 com base em relatos históricos isolados. O que ela sustenta com melhor base é que restrição de carboidratos e dietas cetogênicas podem melhorar marcadores glicêmicos e reduzir necessidade de medicamentos em muitos pacientes.

Fonte: https://uncertaintyprinciples.substack.com/p/more-tales-from-carnivore-history

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